De Baltazar Estaço, poeta luso do século XVI, aqui reproduzo Do próprio aborrecimento, exemplo notável de uma perspectiva ascética Cristã centrada no desapego ao "ego" como fonte das tendências pecaminosas. Realidade que é tão evangélica quão adversamente considerada nos nossos dias de doce afagar de uma consciência dormente e insensível ao actos que nos afastam de Deus, dos outros e do nosso genuíno ser.
Do próprio aborrecimento
Que guerra tão cruel trago comigo,
Pois para nunca ser de mim vencido,
A mim comigo mesmo me persigo.
Comigo de quem sempre ando ferido,
A mim comigo mesmo me persigo.
Vou contra mim se não me contradigo,
Se não me ofendo, sinto-me ofendido,
E como sou de mim tão combatido,
De mim mesmo me fiz fero inimigo.
Se não me ofendo, sinto-me ofendido,
E como sou de mim tão combatido,
De mim mesmo me fiz fero inimigo.
Vejo-me contra Deus adversário,
Com cuja disciplina só me instruo,
E assim nunca comigo me conformo.
Com cuja disciplina só me instruo,
E assim nunca comigo me conformo.
Que quando me reformo, me destruo
E quando me destruo, me reformo.

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