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terça-feira, 19 de outubro de 2010

Actualidade (6) | A miopia voluntária II


(b) Depois, o arcebispo belga diz que a SIDA é, talvez (palavra a que os senhores jornalistas não dão qualquer importância), uma forma de justiça imanente. Saberão os senhores jornalistas o que isto quer dizer? Não quer dizer que Deus (justiça transcendente) esteja a castigar os doentes com aquele flagelo. Isso é o que se deseja dar a entender na notícia, mas os factos não o corroboram. Deseja-se, isso sim, dizer que, sendo a sexualidade também um acto natural, todo o comportamento irresponsável a ela associado tem consequências graves igualmente a nível da natureza que podem (eis de novo o "talvez") estar, por exemplo, a sustentar a propagação da SIDA. Se tanta gente diz que as tragédias climáticas são uma forma da natureza se reequilibrar fazendo justiça aos exageros da actividade humana, nada mais de estão a dizer, por palavras menos rebuscadas e cultas, que «talvez os desastres ecológicos sejam uma forma imanente de justiça».


Mas alguém alguma vez veio dizer que estes senhores estão a demonizar as vítimas dos tornados, furacões ou saraivadas? Alguém veio dizer que se tratam de alarvidades insultuosas? Alguém o disse quando os dirigentes religiosos de outras religiões disseram, por exemplo, que os terramotos são consequência das mulheres andarem de mini-saia? E já agora, qual o motivo de não se dar tamanha importância aos textos fundantes de algumas religiões que, seguidos ainda hoje segundo o espírito em que foram escritos - e não o podendo deixar jamais de o ser -, apelam à morte de homossexuais? Quem demoniza quem? Eis ainda outra miopia voluntária grave que demoniza os Cristãos.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Actualidade (5) | A miopia voluntária I

Surgiu, há dois dias, no jornal "Público" mais um exemplo daquilo em que se têm tornado alguns media ditos ultra-progressistas e ultra-liberais - outros chamar-lhes-iam de "cristianofóbicos" -. Refiro-me à notícia referente a umas palavras de um arcebispo belga Católico, André Leonard, e ao editorial a estas dedicado que são um exemplo consumado de uma epidemia corrente nos dias de hoje: a miopia voluntária grave que demoniza os Cristãos.

André Leonard profere, segundo o "Público", três conjuntos de palavras tidas como inadmissíveis nos dias de hoje: «a anormalidade do comportamento homossexual (se deve) a um bloqueio verificado durante o desenvolvimento psicológico normal»; que a SIDA «talvez se trate de uma justiça imanente» e que aquela doença é uma «consequência de uma sexualidade livre entre adultos».

Pondo de lado a questão da homossexualidade, vou centrar, hoje e amanhã, a atenção nas palavras sobre a SIDA. E faço-o apenas por dois motivos: (1) ao facto da própria notícia centrar-se nesta questão tal como se pode ver pelo título da mesma; (2) ao facto de que, apesar da perspectiva Católica da homossexualidade ser uma das preferidas catapultas para todos os ódios contra a Igreja, a verdade é que as críticas, às palavras e acção da Igreja relativas à homossexualidade, quase sempre ignoram, numa miopia voluntária grave que demoniza os Cristãos, a diferença entre inclinação homossexual e comportamento homossexual que está, por sinal, na base daqueles pronunciamentos e daquela prática.

(a) Em primeiro lugar, e começando pelas últimas palavras, apenas tenho a dizer que, linhas antes de elas surgirem no livro de onde foram retiradas, o arcebispo belga diz: «o verdadeiro amor livre deve ser igualmente responsável, caso contrário não é livre nem, em consequência, é amor». Como é fácil citar fora de contexto para veicular um pretexto. Se se tivesse em consideração estas palavras voluntariamente omitidas, a mensagem de André Léonard, que deve saber destes assuntos mais do que qualquer jornalista do "Público", parece clara e incontestável: uma sexualidade apenas livre, e não igualmente responsável, dá origem a comportamentos de risco susceptíveis de perpetuar a transmissão da SIDA. Não se está a condenar a sexualidade livre, mas a advertir que aquela que não é também responsável alimenta o flagelo da SIDA.


Alguém duvida disso? Algum jornalista do "Público" que seja pai e mãe de família não educa os seus filhos para uma sexualidade sadia e responsável? Ou diz-lhes apenas "andai, sois livres, fazei, nas palavras de Correia, o truca-truca onde e quando quiserdes sem cuidado nenhum"? O facto de, tal como afirma o citado editorial, haver pessoas que são contaminadas pela SIDA «por via sexual sem se terem exposto a comportamentos de risco» não elimina a verdade radical daquelas palavras. E o querer dar a entender o reverso é como dizer que não é preciso, ou que é perigoso, alertar para os perigos da condução sem o uso do cinto de segurança apenas porque há pessoas que morrem em acidentes de viação mesmo usando cintos de segurança. E jamais a Igreja, como insinua o editorial, proíbe o uso de preservativo em toda e qualquer circunstância. Irresponsável, por outro lado, é querer negar que, de facto, o uso do preservativo não é solução (embora possa ser, como admite a Igreja, uma das soluções) para o combate à SIDA, pois inúmeras pessoas são infectadas por vias não sexuais. Eis outra miopia voluntária grave que demoniza os Cristãos.

domingo, 12 de setembro de 2010

O difícil perdão

Hoje as brasas estiveram sobre o "perdão". Como é difícil perdoar. Todos o sabemos, pois todos estamos agarrados a nós mesmos: ao que pensamos ser verdade sobre dado evento, ao que sentimos, às feridas reais ou imaginárias que carregamos, à convicção de que somos justos e correctos. Mas a verdade é outra: só des-agarrando-nos conseguimos ser porquanto só perdoando se é. Só colocando-se de lado o que, até de um modo sincero se vive, se pode ser de um modo autêntico.

A autenticidade não tem nada a ver com o que surge do apego às camadas de pele exógena que se cola à verdade da nossa pessoa. A autenticidade é ser em perdão. É ser em abdicação do que vivemos como um reforço do que nos faz viver apegados ao que herdamos de uma pré-programação na qual nada interviemos com a nossa liberdade. É ser em movimento, em transferência de dom, em projecção de bem.

Mas tudo isto é aparentemente desnatural, anormal. A aparência é bem real. nós não somos o que somos, mas o que podemos ser: não somos naturais nem normais, mas transnaturais e transnormais, não por uma cedência da natureza ou da normalidade, mas pelo descobrir estas onde ela está na realidade: adiante e acima de nós: nos outros e no Outro que nos com-constituem na nossa genuinidade.