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domingo, 10 de outubro de 2010

O papel espiritual do riso

Daquilo que é ridículo e cómico podemos e devemos rir de um modo genuíno. Mas somente consegue fazer isto aquele que não adapta tudo a si, aquele que está liberto de si e que, tal como Jesus Cristo, consegue simpatizar com tudo o que é simpatizável, ou seja, aquele que possui uma misteriosa simpatia com todos e com tudo, e diante de quem todas as pessoas podem ter a oportunidade de dizerem aquilo que pensam. Mas somente a pessoa que ama possui esta simpatia, e assim, consegue rir de um modo verdadeiro.

Rir, neste sentido, pode ser uma espécie de exercício espiritual para a nossa humanização, aquela que vê o valor das coisas pequenas, aquelas que tocam o trivial na nossa existência mas sem as estimarmos como superficiais. O riso verdadeiro mostra, ao contrário da falsa risada amarela que vemos tão frequentemente nos especialistas em promover a própria imagem, que se está de boa relação com a realidade e que, com esse simples gesto espiritual, se está disposto a dizer "Amen" a todas as circunstâncias da  vida, sobretudo aquelas que, não havendo sido escolhidas, são inalteráveis.

Rir liberta a nossa condição para deixar a realidade entrar naquela e cristifica os condicionalismos tornando-os eventos aceitados. Mas o mais frequente é que nos ponhamos a rir de um modo distinto deste e, assim, confundamos a alegria Cristã com uma forma espalhafatosa de existência. E desse modo perdemos a atenção ao que, sendo realmente risível, nos faz mais humanos.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

De trás para a frente

Somos todos ambiciosos. Nascemos assim: programados para, como as árvores, buscarmos a luz do sol mesmo que, se necessário for, à custa do que está ao nosso redor. Queremos viver reduzindo este a um mero sobreviver que arrasta consigo uma atitude de desconfiança, de prepotência, de coerção. Quem luta para estar à frente faz isso mesmo: luta e combate movido pela ambição concomitante da derrota dos demais a qualquer preço.

Contudo o pior talvez aconteça quando se lá está, isto é, quando se está na frente: não se olha "para trás", para os demais que passam, ainda mais, a serem considerados empecilhos para o estatuto vital e social que se adquiriu: tornam-se, assim, inimigos a dobrar - no duplo sentido desta palavra: a multiplicar por dois e a fazer curvar -. Mas inimigos invisíveis, ou seja, incapazes de se darem a ver como quem são e, assim, de os acolhermos para com eles se criar uma relação inter-pessoal que humaniza a realidade circundante.

O inverso é igualmente verdade e, na lógica do Evangelho, o mais correcto: só de trás para a frente se vê os demais, não se os estima como meros competidores e se pode colocar a vida à disposição dos mesmos para os servir com disponibilidade livre e alegre. Claro que estar atrás pode levar a ressentimentos e invejas, mas isso apenas porque ainda se está a pôr o assento tónico na ambição egocêntrica e não na autenticidade Cristã, na existência de mãos abertas e coração empático.