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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Aceitar o perdão

Se perdoar é difícil, aceitar o perdão pode ser mil vezes mais complicado. Em primeiro lugar isso requer, pelo menos implicitamente, a percepção de se ter feito algo que lesou outrem, que feriu aquele que nos diz, verbalmente ou de outro modo, "eu te perdoo". Como isso nos fere! Como isso nos põe em causa! Ser perdoado é colocar um dedo no nosso coração e fazê-lo vibrar a um ritmo diferente daquele em que, geralmente, ele oscila. Ser perdoado des-orbita a nossa existência e leva-nos a questionar as nossas percepções da realidade.

O perdão, com efeito, diz-nos: "há um outro modo de ver a realidade; há uma outra forma de te veres". Mas este modo novo, esta forma nova de percepcionar a existência é um colocar em causa a existência, a "ex"-"stare", o "estar posto aí"... ele agita-nos e faz-nos perder o norte habitual para nos apontar uma outra Estrela Polar, uma estrela que brilha não mais no nosso umbigo, mas no rosto do outro. Aceitar o perdão é acolher a inevitabilidade de passarmos pelo estar perdido, pelo entrar numa "terra incognita" que tem a sua única segurança na humildade e verdade das intenções desarmadas daquele que vem restabelecer algo que até poderíamos não saber que havíamos rompido.

domingo, 12 de setembro de 2010

O difícil perdão

Hoje as brasas estiveram sobre o "perdão". Como é difícil perdoar. Todos o sabemos, pois todos estamos agarrados a nós mesmos: ao que pensamos ser verdade sobre dado evento, ao que sentimos, às feridas reais ou imaginárias que carregamos, à convicção de que somos justos e correctos. Mas a verdade é outra: só des-agarrando-nos conseguimos ser porquanto só perdoando se é. Só colocando-se de lado o que, até de um modo sincero se vive, se pode ser de um modo autêntico.

A autenticidade não tem nada a ver com o que surge do apego às camadas de pele exógena que se cola à verdade da nossa pessoa. A autenticidade é ser em perdão. É ser em abdicação do que vivemos como um reforço do que nos faz viver apegados ao que herdamos de uma pré-programação na qual nada interviemos com a nossa liberdade. É ser em movimento, em transferência de dom, em projecção de bem.

Mas tudo isto é aparentemente desnatural, anormal. A aparência é bem real. nós não somos o que somos, mas o que podemos ser: não somos naturais nem normais, mas transnaturais e transnormais, não por uma cedência da natureza ou da normalidade, mas pelo descobrir estas onde ela está na realidade: adiante e acima de nós: nos outros e no Outro que nos com-constituem na nossa genuinidade.