Se perdoar é difícil, aceitar o perdão pode ser mil vezes mais complicado. Em primeiro lugar isso requer, pelo menos implicitamente, a percepção de se ter feito algo que lesou outrem, que feriu aquele que nos diz, verbalmente ou de outro modo, "eu te perdoo". Como isso nos fere! Como isso nos põe em causa! Ser perdoado é colocar um dedo no nosso coração e fazê-lo vibrar a um ritmo diferente daquele em que, geralmente, ele oscila. Ser perdoado des-orbita a nossa existência e leva-nos a questionar as nossas percepções da realidade.O perdão, com efeito, diz-nos: "há um outro modo de ver a realidade; há uma outra forma de te veres". Mas este modo novo, esta forma nova de percepcionar a existência é um colocar em causa a existência, a "ex"-"stare", o "estar posto aí"... ele agita-nos e faz-nos perder o norte habitual para nos apontar uma outra Estrela Polar, uma estrela que brilha não mais no nosso umbigo, mas no rosto do outro. Aceitar o perdão é acolher a inevitabilidade de passarmos pelo estar perdido, pelo entrar numa "terra incognita" que tem a sua única segurança na humildade e verdade das intenções desarmadas daquele que vem restabelecer algo que até poderíamos não saber que havíamos rompido.
1 comentário:
Bonito.
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