Nos dias de hoje não há muitas pessoas que primem pela coerência de discurso. Vemos isso quotidianamente nos políticos que andam por aí a desgovernar em função (do camuflar de) os seus interesses pessoais. Vemos isso nos paladinos de algumas religiões em que o ocultar a verdade é um dever moral em certas circunstâncias. Vemos isso, para não ir mais longe, no nosso coração sempre que nos apetece parecer mais do que aquilo que somos. Mas há pessoas que são diferentes: pessoas que, assim, carregam o estigma da incompreensão; do serem visados por grupos que se afirmam o estandarte da "tolerância" excepto diante daqueles que pensam e agem de modo oposto ao seu; do serem o alvo de uma aversão que tem mais decibéis públicos do que consistência argumentativa.
Quer gostemos dele ou não, e haverão talvez motivos para alguns não gostarem totalmente dele, uma dessas pessoas é o actual papa Bento XVI. Falando em nome de uma mensagem intemporal de que não é o dono, mas o humilde mensageiro, a sua voz clara e intelectualmente desafiante é das poucas que trazem o peso da verdade nas palavras que a compõem. Sabemos onde estamos com ele; podem discordar dele e até o apelidarem de obscurantista, mas sabe-se o que ele pensa e que este não muda de um dia para o outro.
A sua coragem moral no meio de um mundo que crê numa verdade flutuante é fora do comum. Bento XVI não segue o caminho mais largo e fácil do dizer aos demais o que eles, a partir de uma lógica egocêntrica e ainda não totalmente personalizada (porquanto a verdadeira pessoa é aquela que está centrada no outro), querem ouvir. Ele clama o que eles precisam e, mesmo sem o saberem, querem ouvir sem se preocupar com a popularidade barata a que dão eco os media. Se os seus brilhantes discursos ofendem os membros de outras religiões; de grupos que se afirmam os mais "tolerantes" e "avançados"; dos media que, incapazes de descortinar a sua mensagem pois vivendo na lógica dos "enlatados" visuais, distorcem e devassam mil e uma vezes a sua figura e mensagem; isso não é motivo para ignorar, e fazer ignorar, o que ele diz vendo-o apenas de costas.
E se tais discursos provocam reacções violentas, a responsabilidade real de tais acções está nos corações e mãos de quem as comete, pois cada um é o responsável últimos pelo que decide fazer ou não. É, isso sim, motivo para exercitarmos um maior esforço de atenção para o entender. Mas nos dias de hoje não se quer ter tempo para isso. A sua coragem e verdade não mascaradas assustam. Claro que assustam: não estamos habituados a isso, mas por isso mesmo devemos ouvi-la com maior atenção. O mundo tem o direito de nos amar ou odiar: esse é o peso da mensagem de amor do Evangelho, mas não deve ter o direito de nos silenciar, muito menos em especial se dizemos a verdade e estamos dispostos a conversar sobre ela com quem connosco discorda.


2 comentários:
Na terceira semana de existência, parece-me que o Oração e Partilha é, provavelmente, o melhor blogue de orientação católica que anda por aí. E não só. Com uma erudição genuína, sem pretensiosismos e uma naturalidade luminosa e que consegue transmitir uma serenidade revigorante. vale a pena passar por cá todos os dias, vale.
Obrigado. Faz-se o que se pode mesmo com aquela sensação de que será virtualmente impossível dizer o que quer que seja a quem quer que seja no meio do enorme labirinto de sugestões que é a NET... mas grão a grão algo pode surgir de sugestivo... obrigado...
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