Hoje apresento o segundo poema de um autor português a que, neste blog, dou eco: Hino a Deus de Bocage. Poeta cristalino empapado pela sua posteridade que sempre desejou ignorar a segunda parte da sua existência, aquela em que, precisamente, o vate foi mais homem em sentido pleno, nele podemos encontrar o testemunho de uma busca de sentido em movimento.
Hino a Deus
Pela voz do trovão corisco intenso
Clama que à Natureza impera um Ente,
Que cinge do áureo dia o véu ridente,
Que veste da atra noite o manto denso:
Pasmar na imensidade, é crer o imenso;
Tudo em nós o requer, o adora, o sente;
Provam-te olhos, ouvidos, peito e mente?
Númen, eu ouço, eu olho, eu sinto, eu penso!
Tua ideia, ó Grão-Ser, ó Ser divino,
Me é vida, se me dão mortal desmaio
Males que sofro e males que imagino:
Nunca impiedade em mim fez bruto ensaio;
Sempre (até das paixões no desatino)
Tua clemência amei, temi Teu raio.

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