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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Os Cristãos numa nova-Babilónia

Decorre no Vaticano, por estes dias, um sínodo dedicado à delicada situação dos Cristãos no Médio Oriente. Eis mais um facto que raramente, se é que alguma vez, faz os escaparates dos media neste país moderado que se chama Portugal. E contudo, sob a pressão de uma máquina bem oleada de intolerância e legislação daquela derivada, este trata-se de um dos mais angustiosos, para todos aqueles que acreditam em valores como a liberdade de consciência e de religião, dos mais dolorosos eventos a nível mundial. E isto desde uma Turquia que impede a formação religiosa de novos sacerdotes em seu território, até uma Arábia Saudita que pratica uma das mais tenebrosas formas de apartheid religioso, passando por um Egipto onde quem se afirma Cristão pode até perder os direitos de cidadania.

Não há, de facto, como esconder que ser Cristão naquelas coordenadas é viver com o pescoço numa guilhotina discricionária. Mas mais uma vez os media preferem falar do que ainda era apenas uma lamentável eventualidade, do que daquilo que é uma mais lamentável certeza. Preferem, ainda hoje, silenciar as violentas deportações e genocídios de Cristãos e dar voz apenas à, tantas vezes auto-provocada, refugianização de crentes de outras religiões. Também por estes nossos irmãos, que vivem no meio de uma cada vez mais feroz nova-Babilónia de todos os deuses, devemos elevar as nossas preces ao nosso Pai comum e dar-lhes as nossas disponibilidades criativas como modo de não sermos coniventes com o perpetuar daquele mutismo.

domingo, 10 de outubro de 2010

O papel espiritual do riso

Daquilo que é ridículo e cómico podemos e devemos rir de um modo genuíno. Mas somente consegue fazer isto aquele que não adapta tudo a si, aquele que está liberto de si e que, tal como Jesus Cristo, consegue simpatizar com tudo o que é simpatizável, ou seja, aquele que possui uma misteriosa simpatia com todos e com tudo, e diante de quem todas as pessoas podem ter a oportunidade de dizerem aquilo que pensam. Mas somente a pessoa que ama possui esta simpatia, e assim, consegue rir de um modo verdadeiro.

Rir, neste sentido, pode ser uma espécie de exercício espiritual para a nossa humanização, aquela que vê o valor das coisas pequenas, aquelas que tocam o trivial na nossa existência mas sem as estimarmos como superficiais. O riso verdadeiro mostra, ao contrário da falsa risada amarela que vemos tão frequentemente nos especialistas em promover a própria imagem, que se está de boa relação com a realidade e que, com esse simples gesto espiritual, se está disposto a dizer "Amen" a todas as circunstâncias da  vida, sobretudo aquelas que, não havendo sido escolhidas, são inalteráveis.

Rir liberta a nossa condição para deixar a realidade entrar naquela e cristifica os condicionalismos tornando-os eventos aceitados. Mas o mais frequente é que nos ponhamos a rir de um modo distinto deste e, assim, confundamos a alegria Cristã com uma forma espalhafatosa de existência. E desse modo perdemos a atenção ao que, sendo realmente risível, nos faz mais humanos.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Liberdade, fraternidade e igualdade

Ontem celebrou-se em Portugal o centenário da implementação da República. Muito poderia ser dito sobre esse evento, mas gostaria de aqui deixar umas palavras sobre o estranho caso de membros de todo o espectro político português, inclusive os que na sua história manifestaram menos proximidade prática a esses princípios, terem reclamado para si o serem defensores dos valores da liberdade, fraternidade e igualdade. Mas de onde vêm estes valores?

A tentação daqueles talvez fosse dizer que eles decorrem da Revolução Francesa que, como sabemos, camuflou, sob aqueles, os mais bárbaros actos punitivos dos que não se desejavam considerar como iguais, irmãos e co-livres. Mas será isso assim? Teriam esses valores surgido num qualquer contexto ambiental apartado de um horizonte judaico-cristão que possibilitasse a sua valorização e afirmação? Teriam eles, por exemplo, surgido em quadrantes onde outras religiões são mais representativas?

Talvez a evidência de isso nunca ter ocorrido nos dê uma pista para as respostas correctas àquelas interrogações. Com efeito, e apesar de evidências históricas inegáveis de casos em que se esqueceu, sob distintas pressões, estes fundamentos e assim se negou a própria identidade, a afirmação da liberdade, da fraternidade e da igualdade são, originalmente, uma  das mais profundas e genuínas marcas do Cristianismo. Basta ler, por exemplo, Lucas 22,32; Gálatas 5,13 e Gálatas 3,27-28.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O percurso menos trilhado

Qual é o percurso menos trilhado? A resposta é simples: o do amor. Todos queremos correr e chegar mais cedo do que os demais a qualquer meta a que nos propomos. Mas, no caminho do amor, ou chegamos todos juntos ou não chega ninguém à meta comum. Somos todos membros de um mesmo corpo, de um corpo que já viu a sua Cabeça humano-divina nascer para Deus, mas que tem, ainda, o resto do corpo em trabalho de parto. E queremos apreçar o nascimento mesmo que não estejamos preparados para viver a respirar no âmbito de uma atmosfera toda ela feita de Amor.
 
Somos, neste processo, apertados por um mundo de onde nascemos e do qual herdamos traços característicos que, embora devamos continuar a carregar, devemos, igualmente, superar. E superar com determinação corajosa de modo a passarmos de uma existência que nos é imputada, para outra que assumimos livremente. Eis, de novo, o caminho menos percorrido: o do amor que só existe onde existe liberdade real e efectiva.

E a liberdade é uma realidade corporativa: ninguém é livre por si só ou de costas voltadas para os demais, isto é, independentemente da liberdade destes. Só somos livres onde, e quando, os demais também o forem. E no meio daquela pressa raramente damos tempo a estes e, por conseguinte, estatelamo-nos na vida e boicotamos o nosso desejo de atingirmos a nossa última meta, a única que pode, por desejo antecipativo, iluminar e burilar as demais metas provisórias que determinam as nossas opções e atitudes.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A invisibilidade do milagre

Também nós estamos sempre à espera de milagres. De milagres que dêem, se tal fosse possível, segurança à nossa fé. Desconhecedores que somos, frequentemente, dos motivos para a termos, preferiríamos sinais ostensivos que nos tirassem todas as dúvidas, à humilde e discreta presença do verdadeiro milagre que nos envolve a todo o momento. Mas será que paramos para pensar nisto? Será que paramos para constatar que a alternativa, no fundo, é entre a liberdade e a segurança psicológica? Provavelmente não, mas o mais estranho é que sinto que não poucos de nós acabaríamos, insensatamente, por preferir esta àquela.

Do mesmo modo, existe uma segunda alternativa: entre um Deus que é Amor e um Deus que é um tirano. Se Deus é Amor a sua acção não pode ser senão humilde e discreta, também para nos possibilitar uma existência em plena liberdade. Só se Deus fosse semelhante a um déspota medieval, ou a um qualquer político contemporâneo, sempre preocupado em ter satélites ao seu redor para deles retirar benefícios para si, é que a sua acção seria uma contínua campanha de marketing que aprisionaria toda a beleza.

O maior milagre que existe é, desse modo, o da continuamente subtil presença, em cada instante e local e com plena pureza, de Deus à sua criação. Mas para sermos capazes de constatar tal facto devemos sair do zapping comercial e sintonizar a nossa "powerbox" para a frequência de Deus: a do amor que suscita liberdade e desejo de dar, e não de receber, benefícios.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O peso do desapego

Viver desapegado é essencial para poder-se viver. Quem se apega a isto ou aquilo torna-se possuído por aquilo que julga possuir; torna-se instrumento daquilo que devia ser um instrumento para a sua humanização e, assim, não só o degrada, como, mais ainda, degrada-se a si mesmo. O essencial é usar tudo o que é nuclear para o nosso modo concreto de prolongar a visibilidade do Criador Incarnado de um modo desapegado, de um modo livre. É usar algo sem se submeter aos caprichos que surgem da relação com esse algo; é tornar o peso específico desse instrumento numa imponderabilidade específica, colocando o centro de gravidade da relação, que com ele se tem, não em nós, nem nele, mas no Criador comum.

De facto, o problema não é o objecto em si, mas a avidez que existe frequentemente no nosso coração. Assim é o coração que precisa de ser liberto para ser livre. Tal não se consegue afastando-se da realidade, mas, imerso nela, vendo-a a partir da perspectiva do Criador, isto é, como um espelho da sua bondade e Amor, mesmo nas circunstâncias mais adversas.

Mais do que acumular falsas seguranças, fruto de uma bola-de-neve de bens que de possuídos se tornam em possuidores da nossa vida, há que confiar apenas n'Aquele que em nós confia e nos convida a viver num comprimento de onda cheio de flexibilidade e leveza. Só assim apontamos a nossa existência ao Alto que até nós desce continuamente e, consequentemente, acertamos na face correcta daquilo com que nos relacionamos.

sábado, 18 de setembro de 2010

Colaboração

A verdadeira grandeza de Deus não é exaltada pela diminuição da real grandeza do homem. Esse é um erro de todos os tempos e de todos aqueles que pensam que aquelas opõem-se e que a afirmação de uma implica a redução da outra.

A verdade, porém, é outra. O Criador desejou, quis, deliberou, escolheu livremente que a humanidade colaborasse com Ele na realização do seu desígnio, no seu plano, na persecução do seu fito plenamente bondoso. Assim, a grandeza de Deus, apesar de não ser aumentada um átomo que seja na sua dimensão essencial, resplandece mais quando as criaturas assumem, de um modo igualmente livre, o seu papel naquele fito.

Deus dá-se de um modo gratuito ao longo da história de amor entre Si e a humanidade; cada ser humano, por seu lado, acolhe, de um modo ou de outro e em função das circunstâncias vitais em que vive e para as quais as suas opções colaboraram, aquela auto-doação divina condicionando, assim, a plena efectividade da doação do Criador. Este, com efeito, não força ninguém, mas espera, desejando ardentemente, que lhe abramos a porta do nosso coração para que, com a nossa colaboração, a sua presença possa, depois, frutificar devido ao seu próprio potencial.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O esplendor do amor

Erguendo-se como um cordão umbilical entre a criação e o Criador, está um enigmático objecto que se estende por toda aquele conferindo-lhe a sua própria estrutura de sustentação. Enigmático, sem dúvida, pois não nos deixa, comummente, ver o que o mesmo representa. Ficamos, devido a um somatório de causas mais ou menos articuladas entre si, apegados ao acessório e o essencial, esse inacessível aos olhos da face, passa-nos  inadvertidamente ao lado.

O esplendor do amor, assim, permanece oculto sob uma camada  imensa de discrição e humildade que gera e alimenta a nossa liberdade. Nada de ostentação sedutora, mas quase um convite para seguirmos em frente passando a uma boa distância. Para se parar há que o desejar fazer. Para para e ver aquele esplendor é preciso querer forçar o olhar e estimular as íris do coração para penetrar nas brumas das aparências e deixar vir até nós, na cruz, a porta de ligação com o Outro nelas oculto a pedir a nossa compaixão que nos ressuscita.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Confiar ou fiar?

Parece estranho estar frequentemente a referir-se a uma realidade sem sobre ela ponderar, se tanto, mais do que uns breves momentos. Que é a "fé"? Não se trata apenas de se entregar a alguém: isso seria fiar, fiar-se. É mais do que isso: é uma mútua entrega, é um com-fiar, um com-fiar-se. É um diálogo efectivo de liberdades doadas ao outro para seu benefício e proveito.

Mas poder-se-á dizer o mesmo quando o outro é um Outro? Necessita esse Outro de um outro? Não, o Outro que confia em nós não necessita de nós, mas quer, por ser o Que e Quem é, fiar-se a e de nós: quer entregar-se para nosso bem, para sermos capazes de lhe retribuirmos tal doação para que Ele mais se possa dar e entregar. Eis o único benefício que Lhe damos: o de, fazendo-nos mais capazes de recebê-Lo em liberdade, poder dar-Se mais e mais em igual Liberdade.

Só confiamos em alguém quando esse em nós confia. Quando sabemos poder estar tranquilos e desprotegidos nos braços de quem não nos critica nem deseja mal em nome do bem. Mas como tal é difícil.

domingo, 12 de setembro de 2010

O difícil perdão

Hoje as brasas estiveram sobre o "perdão". Como é difícil perdoar. Todos o sabemos, pois todos estamos agarrados a nós mesmos: ao que pensamos ser verdade sobre dado evento, ao que sentimos, às feridas reais ou imaginárias que carregamos, à convicção de que somos justos e correctos. Mas a verdade é outra: só des-agarrando-nos conseguimos ser porquanto só perdoando se é. Só colocando-se de lado o que, até de um modo sincero se vive, se pode ser de um modo autêntico.

A autenticidade não tem nada a ver com o que surge do apego às camadas de pele exógena que se cola à verdade da nossa pessoa. A autenticidade é ser em perdão. É ser em abdicação do que vivemos como um reforço do que nos faz viver apegados ao que herdamos de uma pré-programação na qual nada interviemos com a nossa liberdade. É ser em movimento, em transferência de dom, em projecção de bem.

Mas tudo isto é aparentemente desnatural, anormal. A aparência é bem real. nós não somos o que somos, mas o que podemos ser: não somos naturais nem normais, mas transnaturais e transnormais, não por uma cedência da natureza ou da normalidade, mas pelo descobrir estas onde ela está na realidade: adiante e acima de nós: nos outros e no Outro que nos com-constituem na nossa genuinidade.