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domingo, 3 de outubro de 2010

A luz da sombra

Há quem imagine o Antigo Testamento (A.T.) como uma espécie de sombra que atemoriza tudo, e todos, excepto se a sua obscuridade for engarrafada pelo recurso a passagens iluminadoras retiradas do Novo Testamento (N.T.). Em certo sentido estou de acordo com eles, pois o A.T. é o começo da narração religiosa judaico-cristã da obscuridade humana, da penumbra da alma de uma humanidade que  obscurece se se afastar de Deus.

Mas  não penso que a luz esteja apenas no N.T.: acredito, com efeito, que o A.T. é igualmente o começo da narração do brilho. Ele projecta-o no caminho d'Aquele que faria sua aquela realidade para, desde dentro, dar-Se como caminho para dela a humanidade sair. Desse modo, o A.T. é essencial para se compreender a mensagem d'Este que, no fundo, não é senão um aperfeiçoar da daquele mediante uma interpretação em chave de Amor.

Uma analogia muito prosaica com esta realidade é facilmente apresentada. Todos gostamos de conhecer a história da própria família. Conhecer, de algum modo, os ditos e feitos dos nossos antepassados, nas suas zonas de luz e sombra, é reconhecer-se a si mesmo de um outro modo. De uma forma que lança lastro numa série de partilhas de vida que nos antecedem e que, assim, são verdadeiras raízes do nosso ser. Do mesmo modo, ignorar o A.T. é ignorar o N.T. e, assim, ignorar o que é ser Cristão.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

As fortes mulheres

Não, não e não. As mulheres não são o "sexo fraco"; antes pelo contrário. Todos o sabemos, mas raramente o mostramos. Quão mais fortes elas são, e forem, mais humana é a sociedade e a civilização em que vivem. Mostre-se, de facto, como são tratadas as mulheres num dado local e poder-se-á ver quão nobre é a matriz social desse micro-mundo.

Na Bíblia a mulher é um pedacinho de Deus para o homem - e vice-versa, deve-se dizer ainda que isso seja menos evidente - e, por ser um caminho para o conhecimento do divino, é tratada de um modo muitíssimo complexo: digna dos maiores cuidados, dos maiores louvores e atenções é, igual e frequentemente, posta num local de invisibilidade, de santidade transbordante que, quando pervertida, se torna, algumas vezes, num espelho do que de menos santo existe.

Invisível, sem dúvida, não para a proteger, nem para proteger os homens, mas para ocultar, aos olhos dos menos preparados, aquela "kabod" ("beleza") e aquela "kadosh" ("santidade"), ou seja, o espelho do resplendor de Deus. Jesus reconhece isso e disso faz eco sem temor nem receio: vive com elas, come com elas, confia nelas, apoia-se nelas e prolonga a sua missão nelas. Contudo, pessoas menos humanizadas de todas as coordenadas históricas, ignorando o motivo daquela preocupação divina, absolutizaram a invisibilidade elevando-a a um patamar descristianizado, desumanizado. Não o sabemos igualmente todos?

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Livros (2) | François Brune - Hélas! Qu'avons-nous fait de Son Amour?

Regressando à rubrica da apresentação de alguns livros que estimo verdadeiramente relevantes para os nossos dias, tenho o imenso gosto de me referir a uma pequena pérola francesa que infelizmente é comummente desconhecida, totalmente desconhecida, num Portugal onde as publicações de livros religiosos sucedem-se com critérios editoriais nem sempre facilmente descortináveis.


Refiro-me ao livro de François Brune, sacerdote da Companhia de Saint-Sulpice especialista em línguas antigas e estudos bíblicos bem como em temas de "confronto" como o esoterismo, Hélas! qu’avons-nous fait de Son Amour? Trata-se de um conjunto de mais de trezentas páginas em que somos confrontados com aquilo que, apesar de ser por demais evidente, raramente paramos para constatar, seja na sua existência, seja nas implicações desta: a Igreja, por diversos motivos que lançam as suas raízes num passado em que se estava mais preocupado com a manutenção do que com a evangelização, não consegue fazer passar a mensagem de que Deus é Amor e nada mais do que Amor.

Daqui, e quase que só daqui, é que surgem os imensos problemas que a Igreja parece acumular para aqueles que não a conhecem devidamente, mas antes a desejam percepcionar a partir dos critérios com que se medem as actividades das demais realidades. Para se inverter esta situação, o autor preconiza um regresso ousado às fontes mais autenticas da vida eclesial: a Bíblia e a Tradição. Não à Tradição composta por  uma sucessão de áridos teólogos de "gabinete", mas à nutrida por aqueles que de um modo mais peculiar viveram Deus: os mestres da espiritualidade Cristã.