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sábado, 23 de outubro de 2010

O sentido da oração

Todos já nos deparámos com pessoas que, estando a passar momentos difíceis, se ressentiam por Deus, aparentemente, estar a dizer "não" ou "espera". Eu mesmo por vezes penso o mesmo. Pedir não está errado e a Bíblia diz-nos que há coisas que não temos porque não pedimos (Tiago 4,2).  O problema está em se pensar que se sabe o que é melhor para nós e para os demais. 

Mas a Bíblia  também nos diz claramente que nós não sabemos o que solicitar na oração (Romanos 8,26). Ou melhor: bem no fundo até o sabemos, mas não o desejamos admitir. Sabemos que só o amor nos sacia e só ele está garantido de nos ser dado por Deus, pois Ele é Amor. Contudo preferimos sonhar com remendos imediatos que, se nos fossem dados, apenas iriam alimentar o nosso egoísmo, a fonte da nossa tendência para nos afastarmos do bem, da verdade, do belo; em síntese: do amor.

Assim podemos compreender que o desfecho por nós desejado de um pedido a Deus não é necessariamente o melhor desfecho para nós. E admitir isto deve levar a que, quando rezamos, devemos ser incrivelmente humildes. De facto, vemos apenas uma porção pequena do todo e conhecemos ainda menos, donde devemos reconhecer que o essencial na oração não é que Deus faça a nossa vontade, mas que por ela tentemos perceber qual é a vontade de Deus para a integrar na nossa vida.

sábado, 25 de setembro de 2010

Actualidades (1) | A coerência do discurso

Passados 15 dias após a criação deste blog, inicio hoje uma nova secção: a de breves comentários directamente relacionados com temas, assuntos ou eventos que têm tido uma relevância significativa nos últimos tempos que precedem estas considerações. E hoje gostaria de aqui deixar umas palavras sobre aquilo que chamo de "a coerência do discurso", que é uma das maiores forças humanas, morais e espirituais do Cristianismo, da Igreja Católica e de Bento XVI em particular.


Para que um dado discurso sobre dada realidade seja em si mesmo portador de verdade e objectividade intrínseca, o mesmo deve ser dito diante de quem quer que seja que esteja a provocar tal realidade. Por outras palavras e de um modo esquemático: se um sujeito chamado, digamos X, faz A, e um outro sujeito, agora de nome Y, faz o mesmo A, para que uma afirmação sobre X relacionada com A tenha consistência e deva ser escutada, a mesma afirmação deve estar disposta a ser efectivamente feita sobre Y relacionada com A. Caso contrário o que se faz não é senão o destilar de uma aversão primitiva, incoerente, injustificada, imatura e oportunista.

Tem sido isso o que tem ocorrido, por exemplo mas não só, com o drama imensamente doloroso da existência de pessoas pedófilas na Igreja Católica. Todos sabem que este é um problema absolutamente transversal à sociedade e que, quer se queira quer não, os caos relacionados com a Igreja Católica são uma gota num oceano. Contudo mesmo assim, uma série imensa de  órgãos de comunicação social e de intelectuais agnósticos, ateus e até nominalmente Cristãos, que aos olhos de muitos já parecem um desfile de crianças ressabiadas por não poderem (continuar a) ser os "donos da quinta", têm dirigido a sua verve apenas contra aquela, não se mostrando tão prolixos em palavras com outras religiões - cujo nome aqui é dispensável pois são tamanhas as evidências - que no seu léxico interno e externo desconhecem, por o desconhecerem igualmente as suas fontes humanas e textuais ortodoxas, aquilo que faz da Igreja um alvo tão apetecível: a humildade, a paciência e, sobretudo, a caridade. Eis porque, recentemente, o próprio filósofo ateu Bernard-Henri Lévy disse que o catolicismo é a religião menos tolerada na Europa. As evidências a esse respeito já não são ignoráveis.
 

A recente visita de Bento XVI ao Reino Unido - e a imagem acima mostra a celebração eucarística na Catedral de Westminster - mostraram-nas mais uma vez. Deste modo, críticas como aquelas que têm sido dirigidas de um modo parcial e não homogéneo, apesar de deverem ser ouvidas, não devem ser vistas como mais do que, de facto, são: um testemunho gritante de uma incoerência do discurso que apenas revela uma incongruência e desonestidade nos argumentos e raciocínios que presidem a este.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

E eu, quem digo que sou?

Quem sou eu? Andamos sempre a correr de lado para lado apenas para não sermos capazes de ser. Desse modo não sabemos quem somos. Claro que podemos perguntar aos demais o que eles pensam sobre nós, mas nunca nos dirão o que quer que seja sobre a nossa interioridade, sobre a nossa autenticidade, pois esta não está em nós, mas neles e eles, por este mesmo motivo, não a deslindam. Somos um buraco vazio, um sifão que puxa tudo o que pode para disfarçar o que não consegue conhecer. Somos não o que somos, mas o que querem dizer que somos.

E nesse caso acabamos sempre a carpir ou cantar o que somos aos demais como que a querer atraí-los para a nossa vacuidade de modo a, estando eles na mesma condição do que nós, nos sentirmos menos estranhos no nosso mundo. Mas a nossa intimidade não pode ser lascivamente exposta sem nos tornamos incapazes de a conhecer. Expondo-nos sem sabermos quem somos, acabamos por ser o que achamos que os demais querem que sejamos e, assim, não somos alguém, mas apenas algo.

Só se soubermos quem somos seremos  pessoas livres: livres de nós e dos demais; livres da nossa opinião e da dos demais. Livres para sermos ainda mais autenticamente quem somos. No fundo, tudo isto passa por se estar atento às modulações de fundo do nosso potencial de amar, o nosso modo de sermos imagens do Deus que é Amor. Isso não se anuncia aos sete ventos, mas vive-se na discrição da humildade disponível.

domingo, 19 de setembro de 2010

Elogio da pequenez

Ser pequeno é ser maior, é ser atento ao importante, é confiar naquele que, de facto, em nós confia. Ser pequeno é ver o mundo como o  verdadeiro humilde o vê, isto é, de baixo para cima, colocando o valor e a altura da  dignidade naquele que está diante de nós e não no nosso umbigo. 

Ser pequeno é estar atento ao invisível, ao que não ofusca a nossa atenção, mas discretamente solicita a nossa percepção. Ser pequeno é aceitar ser alvo do ridículo, do escárnio, da incompreensão que inevitavelmente acompanha a voz daqueles que se crêem a medida da verdade e da humanidade.

Ser pequeno é viver suspenso no momento presente, é viver na gota da eternidade que é o presente contínuo do Criador, do Deus-Amor que nos suscita a cada momento a partir do nada que somos sem Ele. Ser pequeno é ser maior: é perscrutar o mundo com os olhos bem abertos em busca dos veios e filões das suas potencialidades, das suas operatividades, das suas virtualidades que esperam, e desesperam, que as humanizemos com a nossa humanidade deposta nas mãos que nos aquecem em toda as circunstâncias.