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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Pintura (4) | Albrecht Dürer - Cristo entre os doutores

Regressamos hoje, neste blog, à rubrica de grandes pinturas de cunho Cristão. Com efeito, outras religiões, agarradas a uma obsessão iconoclasta que decorre da sua aversão à ideia de encarnação e da presença imanente do Criador entre as criaturas, jamais deram ao mundo, à cultura e à civilização obras tão significativas como as que surgiram em contexto Cristão. Desta feita, aqui fica Cristo entre os doutores de Albrecht Dürer.


Esta obra, actualmente presente em Madrid, trata-se de uma composição impressionante pela vivacidade das suas representações. Com efeito, não representando o Templo, onde a acção se passa, mas fazendo um "close-up" das faces e trejeitos manuais das personagens, o impacto produzido é notável. Com o dedo indicador da sua mão esquerda a tocara palma da mão direita, Jesus, com ar contrito, debate um enxame de académicos arrogantes e hipócritas. O ambiente é opressivo. Dá para ver e sentir na pele. Os doutores estão a desafiar a criança atirando as suas interpretações da lei e perguntas capciosas à própria Lei feita homem. Cristo, com efeito, parece estar pictoricamente esmagado por uma avassaladora multidão de anciãos invejosos.

E tal ambiente de tensa obscuridade é perfeitamente discernível mesmo numa composição repleta de um colorido tipicamente renascentista. É-o, ainda, patenteado no dramático contraste entre a beleza e a inocência de Jesus e a quase repulsivas e malévolas faces dos doutores agarrados mais à letra do que ao espírito da Lei. A trama é-nos bem conhecida, mas se nos ativessemos apenas ao que esta imagem reproduz, o desenlace da cena nela apresentado poderia conduzir-nos à impressão de que a criança seria esventrada pela inveja e aversão daqueles que, com rostos quase animalescos, se debatem para aceitar as evidências do amor.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Livros (4) | Carmine Di Sante - L'uomo alla presenza di Dio

Carmine Di Sante é um dos mais fascinantes teólogos da actualidade. Especializado em Liturgia e Psicologia em distintas universidades de Roma, soube introduzir, como poucos, uma lufada de ar fresco nos estudos bíblicos contemporâneos elevando-os a um patamar em que a acessibilidade e a profundidade conjugam-se harmoniosamente num suceder, em cada página dos seus ensaios, de surpresa e encanto.

 
No texto que aqui apresento, L'uomo alla presenza di Dio: l'umanesimo biblico, o autor, regressando ao texto fundamental de Martin Heidegger apelidado de "Carta sobre o humanismo", procura, a partir da perspectiva antropológica bíblica, responder a questões tão normativas e essenciais como "o que é o homem?"; "em que consiste a sua humanidade?". E fá-lo com uma enorme graciosidade alicerçando as suas respostas nas categorias bíblicas essenciais de "aliança" e Incarnação" que fazem com que aquelas sejam absolutamente irredutíveis dentro da panóplia de opiniões sobre "o que é ser homem".
 
Num enquadramento epocal em que a humanidade parece estar a dissolver-se num relativismo selvagem em que a subjectividade imatura de cada tende a querer impor-se como a norma absoluta da sua existência e, mais grave ainda, da dos outros, Di Santi mostra que a Bíblia guarda o segredo de como a Alteridade, que vem até nós na alteridade relacional e incarnacional do outro, chama à constituição de uma humanidade hospitaleira e fraterna. Só assim, pela educação da vontade humana que se depara com uma lógica de amor que a precede, a humanização não se converte numa desumanização.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Brilhar no escuro

Nada de ostentação, nada de chamar a atenção ostensivamente para o que se faz, nada de se pôr como o umbigo do mundo. Tudo deve ser feito com conta, peso e medida tal como é criado, em cada instante, o Universo. Sobretudo deve ser feito de modo a poder germinar com plena fecundidade, com a mesma fecundidade enaltecida por Aquele que disse que o que fazemos deve ser feito sem daí desejarmos retirar alguma forma de reconhecimento público.

A maior visibilidade desta fecundidade, assim e paradoxalmente, é a nossa invisibilidade. É a lógica do amor, a lógica do grão: só debaixo da terra, invisível aos olhos do mundo, é que ele dá origem à espiga, essa sim, fecundamente visível para os demais. Só agindo numa lógica de incarnação, de entrada real nas circunstâncias de um mundo que nos levará à morte a todas as nossas seguranças, é que aquilo que fazemos adquire uma visibilidade que não se reporta a nós, mas Àquele que se dá, por nós e em nós, aos demais.

Quão mais desejamos ser reconhecidos, menos Este é conhecido: tornámo-nos opacos ao Criador, verdadeiro foco da fecundidade das nossas acções, e os demais apenas conseguem ver a nós. Deixamos de ser sinais que remetem para a origem da nossa vida e convertemo-nos em "buracos negros" que obscurecem a força gravitacional que sustém a nossa existência e a nossa operatividade: o amor divino. Desejamos que a nossa lâmpada - a nossa efectividade - brilhe para glória do Amor? Sustentemo-la e escoremo-la com a nossa discrição.