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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O peso do desapego

Viver desapegado é essencial para poder-se viver. Quem se apega a isto ou aquilo torna-se possuído por aquilo que julga possuir; torna-se instrumento daquilo que devia ser um instrumento para a sua humanização e, assim, não só o degrada, como, mais ainda, degrada-se a si mesmo. O essencial é usar tudo o que é nuclear para o nosso modo concreto de prolongar a visibilidade do Criador Incarnado de um modo desapegado, de um modo livre. É usar algo sem se submeter aos caprichos que surgem da relação com esse algo; é tornar o peso específico desse instrumento numa imponderabilidade específica, colocando o centro de gravidade da relação, que com ele se tem, não em nós, nem nele, mas no Criador comum.

De facto, o problema não é o objecto em si, mas a avidez que existe frequentemente no nosso coração. Assim é o coração que precisa de ser liberto para ser livre. Tal não se consegue afastando-se da realidade, mas, imerso nela, vendo-a a partir da perspectiva do Criador, isto é, como um espelho da sua bondade e Amor, mesmo nas circunstâncias mais adversas.

Mais do que acumular falsas seguranças, fruto de uma bola-de-neve de bens que de possuídos se tornam em possuidores da nossa vida, há que confiar apenas n'Aquele que em nós confia e nos convida a viver num comprimento de onda cheio de flexibilidade e leveza. Só assim apontamos a nossa existência ao Alto que até nós desce continuamente e, consequentemente, acertamos na face correcta daquilo com que nos relacionamos.

domingo, 19 de setembro de 2010

Elogio da pequenez

Ser pequeno é ser maior, é ser atento ao importante, é confiar naquele que, de facto, em nós confia. Ser pequeno é ver o mundo como o  verdadeiro humilde o vê, isto é, de baixo para cima, colocando o valor e a altura da  dignidade naquele que está diante de nós e não no nosso umbigo. 

Ser pequeno é estar atento ao invisível, ao que não ofusca a nossa atenção, mas discretamente solicita a nossa percepção. Ser pequeno é aceitar ser alvo do ridículo, do escárnio, da incompreensão que inevitavelmente acompanha a voz daqueles que se crêem a medida da verdade e da humanidade.

Ser pequeno é viver suspenso no momento presente, é viver na gota da eternidade que é o presente contínuo do Criador, do Deus-Amor que nos suscita a cada momento a partir do nada que somos sem Ele. Ser pequeno é ser maior: é perscrutar o mundo com os olhos bem abertos em busca dos veios e filões das suas potencialidades, das suas operatividades, das suas virtualidades que esperam, e desesperam, que as humanizemos com a nossa humanidade deposta nas mãos que nos aquecem em toda as circunstâncias.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Confiar ou fiar?

Parece estranho estar frequentemente a referir-se a uma realidade sem sobre ela ponderar, se tanto, mais do que uns breves momentos. Que é a "fé"? Não se trata apenas de se entregar a alguém: isso seria fiar, fiar-se. É mais do que isso: é uma mútua entrega, é um com-fiar, um com-fiar-se. É um diálogo efectivo de liberdades doadas ao outro para seu benefício e proveito.

Mas poder-se-á dizer o mesmo quando o outro é um Outro? Necessita esse Outro de um outro? Não, o Outro que confia em nós não necessita de nós, mas quer, por ser o Que e Quem é, fiar-se a e de nós: quer entregar-se para nosso bem, para sermos capazes de lhe retribuirmos tal doação para que Ele mais se possa dar e entregar. Eis o único benefício que Lhe damos: o de, fazendo-nos mais capazes de recebê-Lo em liberdade, poder dar-Se mais e mais em igual Liberdade.

Só confiamos em alguém quando esse em nós confia. Quando sabemos poder estar tranquilos e desprotegidos nos braços de quem não nos critica nem deseja mal em nome do bem. Mas como tal é difícil.