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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Os Cristãos numa nova-Babilónia

Decorre no Vaticano, por estes dias, um sínodo dedicado à delicada situação dos Cristãos no Médio Oriente. Eis mais um facto que raramente, se é que alguma vez, faz os escaparates dos media neste país moderado que se chama Portugal. E contudo, sob a pressão de uma máquina bem oleada de intolerância e legislação daquela derivada, este trata-se de um dos mais angustiosos, para todos aqueles que acreditam em valores como a liberdade de consciência e de religião, dos mais dolorosos eventos a nível mundial. E isto desde uma Turquia que impede a formação religiosa de novos sacerdotes em seu território, até uma Arábia Saudita que pratica uma das mais tenebrosas formas de apartheid religioso, passando por um Egipto onde quem se afirma Cristão pode até perder os direitos de cidadania.

Não há, de facto, como esconder que ser Cristão naquelas coordenadas é viver com o pescoço numa guilhotina discricionária. Mas mais uma vez os media preferem falar do que ainda era apenas uma lamentável eventualidade, do que daquilo que é uma mais lamentável certeza. Preferem, ainda hoje, silenciar as violentas deportações e genocídios de Cristãos e dar voz apenas à, tantas vezes auto-provocada, refugianização de crentes de outras religiões. Também por estes nossos irmãos, que vivem no meio de uma cada vez mais feroz nova-Babilónia de todos os deuses, devemos elevar as nossas preces ao nosso Pai comum e dar-lhes as nossas disponibilidades criativas como modo de não sermos coniventes com o perpetuar daquele mutismo.

domingo, 26 de setembro de 2010

Nem isso lhes deixamos

Não o devemos ocultar até porque é uma das maiores constantes da vida. Não os vemos. Não os ouvimos. Não os acolhemos. Não os servimos. Não os humanizamos tornando-os pessoas. Passamos ao lado deles bem ao largo como que para não sermos contagiados por aquilo que eles são: uma denúncia do que somos.: almas desalmadas que somente os consideramos para confortar a dor, mais ou menos convencional, daquilo a que chamamos consciência, mas a que Deus chama "caixa de reverberação da minha voz".

São ainda um sinal de que o plano do Criador para a criação poderá falhar se continuarmos na nossa comodidade galopante que nos entorpece a cada instante. Mas o pior é que não lhes deixamos, sequer, ser aquilo que são: pobres, indigentes, necessitados. Retiramos-lhes esse epíteto para nos remetermos para o horizonte daqueles que não são recriminados por Cristo nos Evangelhos. Ocultamos a nossa realidade para nos disfarçarmos aos nossos olhos, já de si cegos por imensidades de ofuscam a verdade, e, num mesmo movimento de tenaz, furtar-lhes a identidade que nos poderia converter e humanizar.

Desse modo até acumulamos bens - neste caso aquele designativo que roubamos a quem o carrega com autenticidade - empobrecendo-nos ficcionalmente para não escutarmos aquela "caixa de ressonância" que continuamente emite o som de que é aos indigentes que o Senhor da voz que nela vibra ama. Não devido a quem são eles, mas por ser Ele Quem é: Amor. Não basta, assim, dar-lhes um qualquer supérfluo barato, mas devemos começar por não lhes tirarmos o essencial que aos olhos de Deus é tão caro.