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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Actualidade (4) | Os direitos inumanos

Cada vez mais estamos a adormecer diante da avalanche de palavras e slogans desprovidos de conteúdo daqueles que se dizem pela defesa dos valores humanos. É que estes, em nome de uma falsa noção de "homem", estão a enveredar por uma cultura do relativismo antropológico em que o que é "homem" aqui pode não ser "homem" ali. Com efeito, começa-se a admitir que se deve ser sempre compreensivo com aqueles que, aproveitando-se da inanidade que decorre da fragmentação dos esteios do Ocidente judaico-cristão, postulam os mais abjectos atentados aos direitos da humanidade.


Aqueles defensores de uma axiologia flutuante, sem quererem aperceber-se que isso é um dos primeiros passos para um suicídio em massa, vergam-se continuamente às exigências deste últimos e abdicam de apontar o que nestes é uma manifestação de práticas que não podem ser consideradas senão como bárbaras. Nada de ferir as sensibilidades, nada de dizer algo que possa ser considerado ofensivo, nada de apontar os dedos a práticas fundadas em supostas convicções religiosas, nada de defender o que se acredita se isso puder levar a incompreensões. O problema-base disto tudo é que o que é um ser humano ou o é em todos os quadrantes ou não o é em nenhum. Por outras palavras: enquanto uns ovos forem postos num cesto que se deseja representativo de todos e outros voluntariamente noutro que não aquele, não haverá, jamais, a possibilidade de se fazer uma omelete comum.

Mas disto não se fala, disto não se quer falar e os poucos que o tentam fazer são, rapidamente, apelidados de racistas, xenófobos, intolerantes, etc. Mas dizer a verdade sobre outrem não é, jamais, um ataque a este outro: é, isso sim, um gesto de amor para com este. Com efeito, é por genuíno amor àqueles que, muitas vezes sem opção, nem alternativa de vida, estão submetidos aos mais tétricos contextos sociais que estes devem ser denunciados sem medo de se estar, ou não, a cair nas graças dos demais. Por outro lado, deve ser igualmente dito, que é por amor à humanidade que não se pode cair na tentação de deixar baixar os braços e abdicar de proclamar que ou todos têm os mesmos valores de base ou estes valores não têm valor. E isto é, precisamente, o que aqueles referidos grupos populistas de defesa dos valores humanos, mas que só se vêem quando é para atacar o berço em que nasceram e defenderem aqueles que o querem destruir, mais desejam.


Sejamos honestos. Sejamos coerentes. Sejamos verdadeiros. Não se pode estar sempre a querer não ver, nem a impedir que se veja, a realidade tal como ela é. Não se pode estar sempre a distorcê-la em nome de um lamentavelmente equívoco refrão "são contextos diferentes". Sim, todos os contextos são sempre diferentes, mas há elementos transversais a todos os contextos e são estes que permitirão o verdadeiro diálogo entre os que neles habitam. Não se deve buscar pontos de diálogo contextuais, mas perenes e meta-contextuais pois só assim não se cairá na tentação de ir, à força, encontrar nos demais aquilo que eles não possuem. E aqueles não podem ser senão os direitos humanos como entidades que surgem da análise do que é o ser humano enquanto ser humano. Ousamos afirmá-lo?

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Actualidades (3) | Acerca de Deus e de deus

Já todos o vimos em alguns jornais de referência: a tendência, bem orquestrada por algumas cabeças pseudo pensantes cheias de uma indesmentível amargura e aversão pela civilização em que vivem, de se deixar de colocar uma maiúscula no início da palavra Deus. Esta, dizem estes repetidamente a partir do meio das sopas de letras aleatórias em que vivem, é uma palavra genérica e, desse modo, deve ser escrita, como todas aquelas, com minúscula. Mas será isso assim? E, mais uma vez, encontramos coerência no extrair as consequências de tal postulado nos seus demais usos?


Ninguém, nem aqueles bem intencionados paladinos, pensaria escrever o nome, por exemplo e recorrendo-se de um exemplo que espero não ser aplicável a ninguém em concreto, de Jeremias Radberto Homem de Sarney seguindo a grafia a seguir referida apenas por "Homem" ser também um substantivo genérico ou comum: Jeremias Radberto homem de Sarney. E por que não? Porque, dirão com acerto, aquele nome é o nome de uma pessoa. Eis o que se passa, precisamente, com Deus, pelo menos o Deus judaico-cristão: este não é uma força anónima e impessoal que flutua pelo universo como se fosse uma forma concentrada de energia, mas um Ser Pessoal.

Ignorando o facto de que havendo um Deus não existem deuses "mais pequeninos" - isso já não seria a mesma realidade e, assim, deve usar-se uma outra denominação -, poder-se-á dizer que entre aquelas realidades a que se poderá, concedamos esta possibilidade teórica, chamar de "deus", há uma que não é apenas um "que", mas um "quem", e o nome desse "deus", o único real por sinal, é Deus. Claro que este Deus tem um nome: YHWH, no Antigo Testamento, e Trindade no Novo Testamento, mas estes são uma espécie de apelidos: Deus YHWH e Deus Trindade, ou mais explicitamente ainda e servindo-se daquela concessão acima apresentada: "deus" Deus YHWH e, o que é o mesmo, "deus" Deus Trindade.


Mas se a argumentação daquelas pessoas ignora as bases religiosas, filosófica e até gramaticais da cultura em que se inserem, não fazem o mesmo em relação a outras tradições e é frequente ver-se, inclusive nos mesmos textos, surgir a mil vezes mais equívoca palavra "Alá" com maiúscula numa atitude que apenas desagrega o sabão com que quiseram purgar o contexto em que vivem. Mas que significa esta palavra? Não é, precisamente, o mesmo que "Deus" através de uma transliteração do árabe? Será que não seguem a sua regra porventura devido ao medo de represálias? Ou é por uma valorização da tradição maometana em detrimento da judaico-Cristã? Ou é devido a uma atroz ignorância? Ou é uma mais atroz provocação? Não o sei dizer, apenas o posso constatar.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Actualidades (2) | O peso da verdade

Nos dias de hoje não há muitas pessoas que primem pela coerência de discurso. Vemos isso quotidianamente nos políticos que andam por aí a desgovernar em função (do camuflar de) os seus interesses pessoais. Vemos isso nos paladinos de algumas religiões em que o ocultar a verdade é um dever moral em certas circunstâncias. Vemos isso, para não ir mais longe, no nosso coração sempre que nos apetece parecer mais do que aquilo que somos. Mas há pessoas que são diferentes: pessoas que, assim, carregam o estigma da incompreensão; do serem visados por grupos que se afirmam o estandarte da "tolerância" excepto diante daqueles que pensam e agem de modo oposto ao seu; do serem o alvo de uma aversão que tem mais decibéis públicos do que consistência argumentativa.


Quer gostemos dele ou não, e haverão talvez motivos para alguns não gostarem totalmente dele, uma dessas pessoas é o actual papa Bento XVI. Falando em nome de uma mensagem intemporal de que não é o dono, mas o humilde mensageiro, a sua voz clara e intelectualmente desafiante é das poucas que trazem o peso da verdade nas palavras que a compõem. Sabemos onde estamos com ele; podem discordar dele e até o apelidarem de obscurantista, mas sabe-se o que ele pensa e que este não muda de um dia para o outro.

A sua coragem moral no meio de um mundo que crê numa verdade flutuante é fora do comum. Bento XVI não segue o caminho mais largo e fácil do dizer aos demais o que eles, a partir de uma lógica egocêntrica e ainda não totalmente personalizada (porquanto a verdadeira pessoa é aquela que está centrada no outro), querem ouvir. Ele clama o que eles precisam e, mesmo sem o saberem, querem ouvir sem se preocupar com a popularidade barata a que dão eco os media. Se os seus brilhantes discursos ofendem os membros de outras religiões; de grupos que se afirmam os mais "tolerantes" e "avançados"; dos media que, incapazes de descortinar a sua mensagem pois vivendo na lógica dos "enlatados" visuais, distorcem e devassam mil e uma vezes a sua figura e mensagem; isso não é motivo para ignorar, e fazer ignorar, o que ele diz vendo-o apenas de costas.


E se tais discursos provocam reacções violentas, a responsabilidade real de tais acções está nos corações e mãos de quem as comete, pois cada um é o responsável últimos pelo que decide fazer ou não. É, isso sim, motivo para exercitarmos um maior esforço de atenção para o entender. Mas nos dias de hoje não se quer ter tempo para isso. A sua coragem e verdade não mascaradas assustam. Claro que assustam: não estamos habituados a isso, mas por isso mesmo devemos ouvi-la com maior atenção. O mundo tem o direito de nos amar ou odiar: esse é o peso da mensagem de amor do Evangelho, mas não deve ter o direito de nos silenciar, muito menos em especial se dizemos a verdade e estamos dispostos a conversar sobre ela com quem connosco discorda.

sábado, 25 de setembro de 2010

Actualidades (1) | A coerência do discurso

Passados 15 dias após a criação deste blog, inicio hoje uma nova secção: a de breves comentários directamente relacionados com temas, assuntos ou eventos que têm tido uma relevância significativa nos últimos tempos que precedem estas considerações. E hoje gostaria de aqui deixar umas palavras sobre aquilo que chamo de "a coerência do discurso", que é uma das maiores forças humanas, morais e espirituais do Cristianismo, da Igreja Católica e de Bento XVI em particular.


Para que um dado discurso sobre dada realidade seja em si mesmo portador de verdade e objectividade intrínseca, o mesmo deve ser dito diante de quem quer que seja que esteja a provocar tal realidade. Por outras palavras e de um modo esquemático: se um sujeito chamado, digamos X, faz A, e um outro sujeito, agora de nome Y, faz o mesmo A, para que uma afirmação sobre X relacionada com A tenha consistência e deva ser escutada, a mesma afirmação deve estar disposta a ser efectivamente feita sobre Y relacionada com A. Caso contrário o que se faz não é senão o destilar de uma aversão primitiva, incoerente, injustificada, imatura e oportunista.

Tem sido isso o que tem ocorrido, por exemplo mas não só, com o drama imensamente doloroso da existência de pessoas pedófilas na Igreja Católica. Todos sabem que este é um problema absolutamente transversal à sociedade e que, quer se queira quer não, os caos relacionados com a Igreja Católica são uma gota num oceano. Contudo mesmo assim, uma série imensa de  órgãos de comunicação social e de intelectuais agnósticos, ateus e até nominalmente Cristãos, que aos olhos de muitos já parecem um desfile de crianças ressabiadas por não poderem (continuar a) ser os "donos da quinta", têm dirigido a sua verve apenas contra aquela, não se mostrando tão prolixos em palavras com outras religiões - cujo nome aqui é dispensável pois são tamanhas as evidências - que no seu léxico interno e externo desconhecem, por o desconhecerem igualmente as suas fontes humanas e textuais ortodoxas, aquilo que faz da Igreja um alvo tão apetecível: a humildade, a paciência e, sobretudo, a caridade. Eis porque, recentemente, o próprio filósofo ateu Bernard-Henri Lévy disse que o catolicismo é a religião menos tolerada na Europa. As evidências a esse respeito já não são ignoráveis.
 

A recente visita de Bento XVI ao Reino Unido - e a imagem acima mostra a celebração eucarística na Catedral de Westminster - mostraram-nas mais uma vez. Deste modo, críticas como aquelas que têm sido dirigidas de um modo parcial e não homogéneo, apesar de deverem ser ouvidas, não devem ser vistas como mais do que, de facto, são: um testemunho gritante de uma incoerência do discurso que apenas revela uma incongruência e desonestidade nos argumentos e raciocínios que presidem a este.