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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Actualidades (2) | O peso da verdade

Nos dias de hoje não há muitas pessoas que primem pela coerência de discurso. Vemos isso quotidianamente nos políticos que andam por aí a desgovernar em função (do camuflar de) os seus interesses pessoais. Vemos isso nos paladinos de algumas religiões em que o ocultar a verdade é um dever moral em certas circunstâncias. Vemos isso, para não ir mais longe, no nosso coração sempre que nos apetece parecer mais do que aquilo que somos. Mas há pessoas que são diferentes: pessoas que, assim, carregam o estigma da incompreensão; do serem visados por grupos que se afirmam o estandarte da "tolerância" excepto diante daqueles que pensam e agem de modo oposto ao seu; do serem o alvo de uma aversão que tem mais decibéis públicos do que consistência argumentativa.


Quer gostemos dele ou não, e haverão talvez motivos para alguns não gostarem totalmente dele, uma dessas pessoas é o actual papa Bento XVI. Falando em nome de uma mensagem intemporal de que não é o dono, mas o humilde mensageiro, a sua voz clara e intelectualmente desafiante é das poucas que trazem o peso da verdade nas palavras que a compõem. Sabemos onde estamos com ele; podem discordar dele e até o apelidarem de obscurantista, mas sabe-se o que ele pensa e que este não muda de um dia para o outro.

A sua coragem moral no meio de um mundo que crê numa verdade flutuante é fora do comum. Bento XVI não segue o caminho mais largo e fácil do dizer aos demais o que eles, a partir de uma lógica egocêntrica e ainda não totalmente personalizada (porquanto a verdadeira pessoa é aquela que está centrada no outro), querem ouvir. Ele clama o que eles precisam e, mesmo sem o saberem, querem ouvir sem se preocupar com a popularidade barata a que dão eco os media. Se os seus brilhantes discursos ofendem os membros de outras religiões; de grupos que se afirmam os mais "tolerantes" e "avançados"; dos media que, incapazes de descortinar a sua mensagem pois vivendo na lógica dos "enlatados" visuais, distorcem e devassam mil e uma vezes a sua figura e mensagem; isso não é motivo para ignorar, e fazer ignorar, o que ele diz vendo-o apenas de costas.


E se tais discursos provocam reacções violentas, a responsabilidade real de tais acções está nos corações e mãos de quem as comete, pois cada um é o responsável últimos pelo que decide fazer ou não. É, isso sim, motivo para exercitarmos um maior esforço de atenção para o entender. Mas nos dias de hoje não se quer ter tempo para isso. A sua coragem e verdade não mascaradas assustam. Claro que assustam: não estamos habituados a isso, mas por isso mesmo devemos ouvi-la com maior atenção. O mundo tem o direito de nos amar ou odiar: esse é o peso da mensagem de amor do Evangelho, mas não deve ter o direito de nos silenciar, muito menos em especial se dizemos a verdade e estamos dispostos a conversar sobre ela com quem connosco discorda.

sábado, 25 de setembro de 2010

Actualidades (1) | A coerência do discurso

Passados 15 dias após a criação deste blog, inicio hoje uma nova secção: a de breves comentários directamente relacionados com temas, assuntos ou eventos que têm tido uma relevância significativa nos últimos tempos que precedem estas considerações. E hoje gostaria de aqui deixar umas palavras sobre aquilo que chamo de "a coerência do discurso", que é uma das maiores forças humanas, morais e espirituais do Cristianismo, da Igreja Católica e de Bento XVI em particular.


Para que um dado discurso sobre dada realidade seja em si mesmo portador de verdade e objectividade intrínseca, o mesmo deve ser dito diante de quem quer que seja que esteja a provocar tal realidade. Por outras palavras e de um modo esquemático: se um sujeito chamado, digamos X, faz A, e um outro sujeito, agora de nome Y, faz o mesmo A, para que uma afirmação sobre X relacionada com A tenha consistência e deva ser escutada, a mesma afirmação deve estar disposta a ser efectivamente feita sobre Y relacionada com A. Caso contrário o que se faz não é senão o destilar de uma aversão primitiva, incoerente, injustificada, imatura e oportunista.

Tem sido isso o que tem ocorrido, por exemplo mas não só, com o drama imensamente doloroso da existência de pessoas pedófilas na Igreja Católica. Todos sabem que este é um problema absolutamente transversal à sociedade e que, quer se queira quer não, os caos relacionados com a Igreja Católica são uma gota num oceano. Contudo mesmo assim, uma série imensa de  órgãos de comunicação social e de intelectuais agnósticos, ateus e até nominalmente Cristãos, que aos olhos de muitos já parecem um desfile de crianças ressabiadas por não poderem (continuar a) ser os "donos da quinta", têm dirigido a sua verve apenas contra aquela, não se mostrando tão prolixos em palavras com outras religiões - cujo nome aqui é dispensável pois são tamanhas as evidências - que no seu léxico interno e externo desconhecem, por o desconhecerem igualmente as suas fontes humanas e textuais ortodoxas, aquilo que faz da Igreja um alvo tão apetecível: a humildade, a paciência e, sobretudo, a caridade. Eis porque, recentemente, o próprio filósofo ateu Bernard-Henri Lévy disse que o catolicismo é a religião menos tolerada na Europa. As evidências a esse respeito já não são ignoráveis.
 

A recente visita de Bento XVI ao Reino Unido - e a imagem acima mostra a celebração eucarística na Catedral de Westminster - mostraram-nas mais uma vez. Deste modo, críticas como aquelas que têm sido dirigidas de um modo parcial e não homogéneo, apesar de deverem ser ouvidas, não devem ser vistas como mais do que, de facto, são: um testemunho gritante de uma incoerência do discurso que apenas revela uma incongruência e desonestidade nos argumentos e raciocínios que presidem a este.