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terça-feira, 28 de setembro de 2010

Os incendiarios

Eliminar os obstáculos não é o mesmo que incendiar aqueles que os geram, mas é frequente que surja a tentação de misturar estas duas realidades. E o motivo é simples: é muito mais fácil pensar numa existência sem os suscitadores de dificuldades do que numa existência sem dificuldades mas com aqueles que, num dado momento, nos criam, ou podem criar, obstáculos. 

Mas para sermos pessoas e não apenas "gente" devemos sempre amar as pessoas por mais que devamos criticar e até repudiar algumas das suas acções. O individuo não se confunde com as suas acções. Jamais. O valor daquele é infinito, o destas não. Se aquele, com os demais, gera uma rede vital, estas dão origem tão somente uma entidade abstracta que se cristaliza, é verdade, numa dada orientação que é imprimida à criação, mas não se confundindo com esta.

Claro que nós também somos o que fazemos, mas somos, igualmente, muito mais do que isso. E é por o sermos que surge aquela tentação imatura de não tanto querermos enfrentar os obstáculos, mas mais quem os levanta: sem estes aqueles, sejam presentes ou futuros, desapareceriam pois desapareceriam as fontes das suas acções que nos criam adversidades. Mas estas são, estranhamente, um meio para a nossa humanização pois revelam os limites da nossa existência e nos recordam que o mais difícil que podemos ter que fazer é amar aqueles que nos desestimam e "pisam os calos", pois só assim somos efectivamente semelhantes a um Criador que a todos ama.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

De trás para a frente

Somos todos ambiciosos. Nascemos assim: programados para, como as árvores, buscarmos a luz do sol mesmo que, se necessário for, à custa do que está ao nosso redor. Queremos viver reduzindo este a um mero sobreviver que arrasta consigo uma atitude de desconfiança, de prepotência, de coerção. Quem luta para estar à frente faz isso mesmo: luta e combate movido pela ambição concomitante da derrota dos demais a qualquer preço.

Contudo o pior talvez aconteça quando se lá está, isto é, quando se está na frente: não se olha "para trás", para os demais que passam, ainda mais, a serem considerados empecilhos para o estatuto vital e social que se adquiriu: tornam-se, assim, inimigos a dobrar - no duplo sentido desta palavra: a multiplicar por dois e a fazer curvar -. Mas inimigos invisíveis, ou seja, incapazes de se darem a ver como quem são e, assim, de os acolhermos para com eles se criar uma relação inter-pessoal que humaniza a realidade circundante.

O inverso é igualmente verdade e, na lógica do Evangelho, o mais correcto: só de trás para a frente se vê os demais, não se os estima como meros competidores e se pode colocar a vida à disposição dos mesmos para os servir com disponibilidade livre e alegre. Claro que estar atrás pode levar a ressentimentos e invejas, mas isso apenas porque ainda se está a pôr o assento tónico na ambição egocêntrica e não na autenticidade Cristã, na existência de mãos abertas e coração empático.

domingo, 26 de setembro de 2010

Nem isso lhes deixamos

Não o devemos ocultar até porque é uma das maiores constantes da vida. Não os vemos. Não os ouvimos. Não os acolhemos. Não os servimos. Não os humanizamos tornando-os pessoas. Passamos ao lado deles bem ao largo como que para não sermos contagiados por aquilo que eles são: uma denúncia do que somos.: almas desalmadas que somente os consideramos para confortar a dor, mais ou menos convencional, daquilo a que chamamos consciência, mas a que Deus chama "caixa de reverberação da minha voz".

São ainda um sinal de que o plano do Criador para a criação poderá falhar se continuarmos na nossa comodidade galopante que nos entorpece a cada instante. Mas o pior é que não lhes deixamos, sequer, ser aquilo que são: pobres, indigentes, necessitados. Retiramos-lhes esse epíteto para nos remetermos para o horizonte daqueles que não são recriminados por Cristo nos Evangelhos. Ocultamos a nossa realidade para nos disfarçarmos aos nossos olhos, já de si cegos por imensidades de ofuscam a verdade, e, num mesmo movimento de tenaz, furtar-lhes a identidade que nos poderia converter e humanizar.

Desse modo até acumulamos bens - neste caso aquele designativo que roubamos a quem o carrega com autenticidade - empobrecendo-nos ficcionalmente para não escutarmos aquela "caixa de ressonância" que continuamente emite o som de que é aos indigentes que o Senhor da voz que nela vibra ama. Não devido a quem são eles, mas por ser Ele Quem é: Amor. Não basta, assim, dar-lhes um qualquer supérfluo barato, mas devemos começar por não lhes tirarmos o essencial que aos olhos de Deus é tão caro.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A complexidade do ver

Há ver e ver; há ver e ir e há ver e voltar. Se com o mar o melhor é poder voltar, com o ver, o óptimo é não regressar: é fazer do ver um vector de relações autênticas com os demais, não para os converter no centro da nossa curiosidade egocêntrica, mas para fazer deles o fio-de-prumo da nossa pessoa. Ver, neste sentido, é desfolhar as aparências que cobrem os demais neste mundo de estuque e entrar cuidadosamente na sua autenticidade.

Os demais não são instrumentos para a nossa personalização: isso seria instrumentá-los. São, isso sim, a nossa própria personalização. Esta ocorre apenas numa lógica de intercâmbio inter-relacional em que, na onda do dar e acolher, reproduzimos o que de mais fundamental existe no Deus que é Amor. A nossa própria pessoa, a nossa própria vida só são genuínas se formos capazes de ver segundo aquele padrão de decapagem que instaura um diálogo de autenticidades depostas.

Ver, neste contexto, é, então, complexificar a existência tornando-a mais lisa de repuxos e rugas: em nós e nos demais. É ser um vedor da verdade, daquela verdade que ressuscita a partir da nossa humildade, da nossa pequenez que vê o outro "de baixo" e jamais "de cima" para, sem receios da nossa mirada, ele deixar-se acolher na nossa aceitação, aquela que apenas busca neles o reflexo do Amor que, nos fazendo pessoa, os torna mais pessoas.