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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A complexidade do ver

Há ver e ver; há ver e ir e há ver e voltar. Se com o mar o melhor é poder voltar, com o ver, o óptimo é não regressar: é fazer do ver um vector de relações autênticas com os demais, não para os converter no centro da nossa curiosidade egocêntrica, mas para fazer deles o fio-de-prumo da nossa pessoa. Ver, neste sentido, é desfolhar as aparências que cobrem os demais neste mundo de estuque e entrar cuidadosamente na sua autenticidade.

Os demais não são instrumentos para a nossa personalização: isso seria instrumentá-los. São, isso sim, a nossa própria personalização. Esta ocorre apenas numa lógica de intercâmbio inter-relacional em que, na onda do dar e acolher, reproduzimos o que de mais fundamental existe no Deus que é Amor. A nossa própria pessoa, a nossa própria vida só são genuínas se formos capazes de ver segundo aquele padrão de decapagem que instaura um diálogo de autenticidades depostas.

Ver, neste contexto, é, então, complexificar a existência tornando-a mais lisa de repuxos e rugas: em nós e nos demais. É ser um vedor da verdade, daquela verdade que ressuscita a partir da nossa humildade, da nossa pequenez que vê o outro "de baixo" e jamais "de cima" para, sem receios da nossa mirada, ele deixar-se acolher na nossa aceitação, aquela que apenas busca neles o reflexo do Amor que, nos fazendo pessoa, os torna mais pessoas.

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