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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Um mundo ateu

Estamos diante da emergência de uma primeira civilização ateia. Uma sociedade que prefere os lucros a curto termo em vez dos investimentos a um prazo mais dilatado, a facilidade à felicidade. Uma sociedade embebecida pelo orgulho que, mesmo nas esferas eclesiais, não se tem pejo em proclamar. O orgulho, este orgulho que é concomitante com uma radical descrença em Deus, é o daquele que se guia pela lógica da riqueza em direcção ao deixar de respeitar a contribuição da natureza, e dos demais, para a verdadeira edificação do mundo excepto quando aquela e aqueles lhe parecem uma outra fonte de lucro.

Mas isto leva, inexoravelmente, ao esgotar da vitalidade, da humanidade, da positividade. Ou seja: tendo-se querido substituir o espírito judaico-cristão que animava a civilização ocidental pela riqueza orgulhosa e o orgulho enriquecido que não é senão um sucedâneo daquele que nem é espiritual nem animante, acabou-se por se chegar a um vazio radical. Este vazio leva à dissolução das redes humanas, das redes de relação entre seres que ontologicamente são uma realidade corporativa e assim a desumanização assoma à realidade.

Desse modo, a fome humana conatural pela dimensão religiosa e espiritual leva, se dela nos deixarmos tornar conscientes, à busca um novo espírito onde ele se encontra. Mas estando esta civilização ateia num patamar de humanidade assaz basilar, encontramos-lo não nas propostas mais exigentes como as Cristãs, mas nas mais elementares, e por isso mais cativantes, que, por vezes, quase não elevam a humanização acima do mínimo.

sábado, 25 de setembro de 2010

Actualidades (1) | A coerência do discurso

Passados 15 dias após a criação deste blog, inicio hoje uma nova secção: a de breves comentários directamente relacionados com temas, assuntos ou eventos que têm tido uma relevância significativa nos últimos tempos que precedem estas considerações. E hoje gostaria de aqui deixar umas palavras sobre aquilo que chamo de "a coerência do discurso", que é uma das maiores forças humanas, morais e espirituais do Cristianismo, da Igreja Católica e de Bento XVI em particular.


Para que um dado discurso sobre dada realidade seja em si mesmo portador de verdade e objectividade intrínseca, o mesmo deve ser dito diante de quem quer que seja que esteja a provocar tal realidade. Por outras palavras e de um modo esquemático: se um sujeito chamado, digamos X, faz A, e um outro sujeito, agora de nome Y, faz o mesmo A, para que uma afirmação sobre X relacionada com A tenha consistência e deva ser escutada, a mesma afirmação deve estar disposta a ser efectivamente feita sobre Y relacionada com A. Caso contrário o que se faz não é senão o destilar de uma aversão primitiva, incoerente, injustificada, imatura e oportunista.

Tem sido isso o que tem ocorrido, por exemplo mas não só, com o drama imensamente doloroso da existência de pessoas pedófilas na Igreja Católica. Todos sabem que este é um problema absolutamente transversal à sociedade e que, quer se queira quer não, os caos relacionados com a Igreja Católica são uma gota num oceano. Contudo mesmo assim, uma série imensa de  órgãos de comunicação social e de intelectuais agnósticos, ateus e até nominalmente Cristãos, que aos olhos de muitos já parecem um desfile de crianças ressabiadas por não poderem (continuar a) ser os "donos da quinta", têm dirigido a sua verve apenas contra aquela, não se mostrando tão prolixos em palavras com outras religiões - cujo nome aqui é dispensável pois são tamanhas as evidências - que no seu léxico interno e externo desconhecem, por o desconhecerem igualmente as suas fontes humanas e textuais ortodoxas, aquilo que faz da Igreja um alvo tão apetecível: a humildade, a paciência e, sobretudo, a caridade. Eis porque, recentemente, o próprio filósofo ateu Bernard-Henri Lévy disse que o catolicismo é a religião menos tolerada na Europa. As evidências a esse respeito já não são ignoráveis.
 

A recente visita de Bento XVI ao Reino Unido - e a imagem acima mostra a celebração eucarística na Catedral de Westminster - mostraram-nas mais uma vez. Deste modo, críticas como aquelas que têm sido dirigidas de um modo parcial e não homogéneo, apesar de deverem ser ouvidas, não devem ser vistas como mais do que, de facto, são: um testemunho gritante de uma incoerência do discurso que apenas revela uma incongruência e desonestidade nos argumentos e raciocínios que presidem a este.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Livros (5) | Robert J. Spitzer - New Proofs for the Existence of God

Hoje deixo aqui, com entusiasmo, um livro recente de Robert J. Spitzer chamado New Proofs for the Existence of God: Contributions of Contemporary Physics and Philosophy. Num contexto de uma crescente popularidade de certos livros escritos por gurus do agnosticismo e ateísmo, esta obra trata-se de uma patente demonstração, que aqueles desejam sistematicamente ignorar, de todas as evidências que se avolumam, a partir dos dados da própria ciência, para a existência de um Deus Criador.


Desde a assimetria universal do espaço-tempo às coincidências, nada prováveis, do leque das constantes cósmicas, o autor, um sacerdote da Companhia de Jesus, redige uma obra de leitura surpreendentemente agradável, sem nunca incorrer na tentação de arguir que o que refere é de uma evidência apodíctica, antes dizendo, com a humildade que a ciência exige, que tudo o que apresenta indicia mais a existência de um ser transcendente do que a sua inexistência. Recorrendo também ao contributo epistemológico de Bernard Lonergan, a obra apresenta uma fundação muito boa para a construção de uma estrutura intelectual para conseguir, na sequência da Encíclica “Fides et Ratio” de João Paulo II, fazer avançar o diálogo entre a Fé e a Ciência.

Recorrendo ao método socrático e uma panóplia de metáforas que simplificam, no bom sentido, a sua exposição, o autor elabora uma nuvem bastante elegante e convincente de argumentos lógicos para aquele apontar para a existência de um Criador. Mesmo nas ocasiões em que a sua exposição se torna mais académica, a sua linguagem logra ser acessível a quem não é cientista nem filósofo.