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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Do Céu Caiu Uma Estrela - Frank Capra | Cinema (5)

Eis um dos mais belos filmes natalícios -- e não é que o Natal já está mesmo à porta? -- de sempre: Do céu caiu uma estrela -- "It's a Wonderful Life" no original -- de Frank Capra, uma simpática história de um anjo que ajuda um misericordioso, mas desesperadamente frustrante negociante ao mostrar-lhe quão diferente seria a sua vida se ele nunca tivesse existido. Perante tal perspectiva, que nos faz recordar imediatamente o "Um Cântico de Natal" de Charles Dickens, aquele até então melancólico ser adquire uma renovada fé e uma fortalecida confiança em si e no valor da vida.

 
Com um sempre extraordinário James Stewart e uma bela Donna Reed, este filme de 1947, está marcado  densamente não só por um espírito de "fazer sentir bem", mas ainda por uma multíplice camada de perspectivas dicksenianas que convidam constantemente à reflexão. A sua mensagem intemporal, marcadamente Cristã, fez dele um autêntico clássico do cinema. Ou melhor: de um certo cinema que até há bem pouco tempo parecia estar esquecido por Hollywood.


Em pouco mais de duas horas, somos brindados, nesta comédia dramática, com uma avalanche de emoções e sentimentos que ajudam a lavar a alma. Mais: atrás da mais evidente mensagem do "acredita de um modo positivo em ti", encontra-se um intuito de denunciar a impotência metafísica e, assim, moral e social do ateísmo moderno.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Templos (10) | Genève - Igreja Russa

Regressa hoje, a este blog, o tema das mais belas igrejas Cristãs com a breve apresentação da Igreja Russa de Genève. Foi no século XIX que, depois desta cidade helvética ter sido descrita pelo autor Nikolai Karamsin, inúmeros habitantes do país dos Czares se deslocaram para Genève. Aí, com a autorização dos governantes da mesma e a ajuda da grande duquesa Anna Fyodorovna -- cunhada do Czar Alezandre e tia da rainha Vitória --, construíram este tempo, sobre as ruínas de um antigo priorado beneditino do século XVI, entre 1863 e 1866.


Tendo como nome oficial a designação de Catedral da Exaltação da Santa Cruz, é encimada, bem ao gosto da tradição arquitectónica ortodoxa eslava, com nove cúpulas douradas em forma de cebola: cinco sobre a nave; três sobre a abside tripartida e um na torre. Nela se entra por um pórtico imponente com arcos de estilo bizantino listrado. As paredes, arcos e pilares encontram-se inteiramente cobertas com pinturas cheias de sabor, pureza de estilo, detalhes simples e um equilíbrio perfeito. No interior podem ser vistos magníficos ícones datados entre o século XVI e o século XX, bem como não menos singulares tesouros doados pela família imperial russa.


A nave, como é comum nos templos ortodoxos, encontra-se separada do santuário pela iconostasis feita com mármore de Carrara esculpido e decorado. Esta divisória está totalmente carregada com imagens sagradas. Podem ainda ser venerados relíquias de santos, desde são Nicolau a são Serafim de Sarov.

 

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Declaração de interesse

Pois é. Parece que este blog foi atacado por algo que desformatou totalmente o seu "template", colocando a barra lateral de "gadgets" no fim dos posts. Lamentando profundamente esta situação, garante-se que se está a tentar resolver a mesma o mais rapidamente possível, ocorrência que até ao momento, e no meio de mais do que uma erupção de impotência informática, tem sido totalmente impossível. Há uns anos eram os defeitos físicos ou psicológicos que "formavam o carácter", hoje serão estes percalços digitais.

domingo, 23 de outubro de 2011

Poesia (39) | Daniel Faria - Do Livro dos Actos dos Apóstolos

Daniel Faria. Ponto parágrafo. Palavras para quê? É um poeta português com certeza. Já visitou este blog no passado, mas não se pode resistir à grandeza da humildade ofuscada por aqueles enormes óculos baços que o faziam ver o clarão de Deus na natureza que não podia controlar. Aqui fica Do Livro dos Actos dos Apóstolos.



Do Livro dos Actos dos Apóstolos

                          A luz de Damasco é um grito
                          Para a ovelha que regressa

                          A luz de Damasco é um tombar do trigo, um cair
                          Do grão – cega tanto como os olhos
                          De um homem perseguido quando se volta
                          Para nós

                          A luz de Damasco golpeia. É circuncisão
                          Que abre, limpa, a luz de Damasco
                          É dura. Da dureza

                          Das pedras que um mártir junta com as mãos
                          Com que empedra o caminho para a morte. A luz
                          De Damasco é esse lume

                          Da oração de um mártir ao morrer.

sábado, 22 de outubro de 2011

Só lhe resta o cão, ou talvez não

Talvez não se saiba mas o humor sadio é uma das marcas mais características de um bom Cristão. Esta realidade já foi referida neste blog no passado. Mas esta sua recordação só vem à mão devido a uma situação recentemente observada por um empregado de restaurante. Seja permitido relatá-la nesta ocasião.

Relata aquele funcionário que, quando um sacerdote estava a jantar com um outro homem no restaurante onde trabalha, ouviu mais do que um cliente a dizer "Só pode ser homossexual... a Igreja está cheia desses perversos e apenas impede o matrimónio para fomentar uma certa cultura gay". Dias depois, tendo aquele mesmo sacerdote ido jantar no mesmo local com uma mulher, os comentários ouvidos eram diferentes, mas o tom viperino persistia: "Está tudo perdido... agora nem escondem, das demais pessoas, as suas relações afectivas e sexuais que todos sabem que existem por todo o lado".

Preocupado com a situação, tal empregado de mesa acabou por se dirigir àquele sacerdote e referir-lhe o que se passava. Depois de umas palavras que relativizaram a mesma, o sacerdote acabou, com um grande humor certamente tão ferido quão impactante, por dizer "Em breve, e se quisesse evitar dar ocasião a essas maledicências, só poderia vir jantar aqui com o meu cão". Após um par de segundos a rir, o empregado, como se lembrasse de algo que já soubera muitíssimo bem, abanou a cabeça e, esquecendo-se do tom humorístico com que tais palavras foram proferidas, disse: "Não senhor padre... não queremos ofender os crentes muçulmanos para quem os cães de estimação são uma ofensa e devem ser mortos". Pode-se duvidar que isto seja verdade. Mas é (Bukhari, volume 4, livro 54, número 540). Assim talvez nem lhe reste o cão.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Poesia (38) | Tolentino Mendonça - Da verdade do amor

Do mestre incontestável de uma certa poesia neo-figurativa e, ao mesmo tempo, pós-inconformista Cristã, o tão padre sonhador quão poeta realista Tolentino Mendonça, aqui fica, nesta secção deste blog dedicada à poesia de odor Cristão, o tristemente inconformado Da verdade do amor. Que seja lido com o mesmo propósito com que foi escrito: o de chamar atenção, não para si, mas para o seu autor numa estreita relação de egoísmo domado.


Da verdade do amor

                                 Da verdade do amor se meditam
                                 relatos de viagens confissões
                                 e sempre excede a vida
                                 esse segredo que tanto desdém
                                 guarda de ser dito
                                
                                 pouco importa em quantas derrotas
                                 te lançou
                                 as dores os naufrágios escondidos
                                 com eles aprendeste a navegação
                                 dos oceanos gelados

                                 não se deve explicar demasiado cedo
                                 atrás das coisas
                                 o seu brilho cresce
                                 sem rumor

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O novo nascimento

O complexo simbolismo do novo nascimento é, como diz Marie-Émile Boismard, um tema bastante comum nas verdadeiras -- pois há aquelas que, sob uma máscara de religião, não o são -- religiões da humanidade. Jesus, assumindo de um modo indirecto todas essas tradições ao se ter feito Homem, fala igualmente do novo nascimento, do nascimento espiritual, aquele que ocorre aquém das árvores de uma natureza que, devido à insensatez humana, se tornou tantas e tantas vezes adversa à persecução da vocação humana ao amor.


Partindo dos textos do 31º capítulo do Livro do profeta Jeremias e do 30º capítulo do Livro do Deuteronómio -- que podem ser lidos agora --, o nosso Senhor compara a palavra de Deus a uma semente depositada no nosso coração para ser nele o princípio da nossa vida moral (conferir Evangelho segundo são Mateus 13, 18-23). Ensina, ainda e como devemos recordar muito bem, a necessidade de se regressar à condição dos "pequeninos" para se entrar no Reino dos Céus (conferir Evangelho segundo são Mateus 18, 3).

Com efeito, tal como ocorre com tais "pequeninos" -- tanto a nível etário quão social --, o homem deve consentir a receber de Deus tudo o que de bom, bem e belo pode buscar e encontrar na sua vida. Estas verdades, basilares para a vida moral e espiritual Cristã, far-se-ão explícitas no Evangelho segundo são João quando, de modo resumido, Jesus disser que é necessário nascer de novo, do alto e do Espírito, para entrarmos no âmbito do reinado divino.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Livros (9) | Walter M. Miller, Jr. - A Canticle for Leibowitz

Eis aqui a apresentação daquela que é considerado o melhor livro de ficção cientifica de sempre: A Canticle for Leibowitz de Walter M. Miller Jr.. Já ouviram falar dele? Já o tiveram em mãos? Já o leram no idioma original ou numa qualquer tradução -- a editora Europa-América publicou uma tradução em 2000 com o título de Um Cântico a Leibowitz --? Talvez não e o motivo é simples: trata-se de um livro católico em que a Igreja é o próprio protagonista.


Efectivamente, ele é sobre a Igreja do futuro, após uma eventual Terceira Guerra Mundial que deixou o mundo cheio de radioactividade e aversão à tecnologia, à ciência, à cultura. O autor, profundamente era católico, baseou-se, para a redacção deste seu único romance publicado durante a sua vida, numa imagem que o impressionou fortemente aquando das suas missões militares durante a Segunda Guerra Mundial: o bombardeamento do grande mosteiro beneditino de Monte Cassino, Itália. Deste modo, é num mosteiro católico, no deserto do sudoeste dos Estados Unidos, que os monges de uma ficcional ordem Albertina de Leibowitz assumem a missão de preservar os restos dos conhecimentos humanos naquelas áreas até que o mundo exterior esteja outra vez preparado para eles.

Num tom realista, que deve abominar os seguidores ingénuos e utopistas da New Age -- basta ver o pouco sucesso do filme A Estrada de John Hillcoat baseado nesta obra --, mas igualmente esperançoso, os grandes valores da vida humana são preservados a um enorme custo num fim rematado com um surpreendente suspenso mariano. Cheio de um humor surpreendente num texto tão denso, nunca deixou de ser reimpresso todos os anos e em todos os países de língua oficial inglesa. E isto não obstante abordar temas bastante controversos ao longo destes últimos 40 anos: o confronto entre a Igreja e o Estado e a tese da inevitabilidade cíclica da história humana.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

A coragem espiritual

O Cristão, disse outrora Carlo Maria Martini, está chamado a cultivar, na sua vida, a virtude da coragem. Sem dúvida. Mas não apenas a coragem de se interrogar sobre as realidades da natureza humana, mas também a de ousar arriscar a ser verdadeiramente livre para caminhar alicerçando-se na verdade, na justiça, no estudo sério e qualificado do conteúdo da sua fé, na amizade fiel e respeitosa.

Renunciar ao desejo de possuir, em todos os domínios, renunciar à cobiça dos olhos e dos sentidos, à aspiração aos lugares cimeiros onde os olhos do "mundo" repousam, são atitudes que devem estar assentes numa resposta generosa ao amor primeiro de Deus. Ou seja: à oferta de Deus, à sua Palavra, às necessidades dos próximos que nos rodeiam e a quem é necessário dar as mãos.

Eis a coragem que abre o coração e lhe dá a capacidade de compreender que viver não significa apenas o "ir", mas o consentir a ser "chamado e enviado". De facto viver não significa responder à questão "o que é que me dará prazer?", mas amar e escolher o que agrada a Deus, o que é bom, belo, justo e verdadeiro. Será, então, que vivemos?

Poesia (37) | Charles Wesley - O Thou who camest from above

Nos nossos tempos de diálogo ecuménico, conhecer a tradição espiritual dos nossos irmãos cada vez menos separados é, sem nenhuma dúvida, um dos melhores caminhos para se encetar a reunião na diferença que mostre a união desejada por nosso Senhor. Nesse sentido aqui fica um dos mais relevantes poemas, celebrando o Espírito Santo, de Charles Wesley, teólogo notável e animador do movimento metodista no século XVIII: O Thou who camest from above.


O Thou who camest from above

                                    O Thou who camest from above,
                                    the pure celestial fire to impart,
                                    kindle a flame of sacred love
                                    upon the mean altar of my heart.

                                    There let it for Thy glory burn
                                    with inextinguishable blaze,
                                    and trembling to its source return,
                                    in humble prayer and fervent praise.

                                    Jesus, confirm my heart's desire
                                    to work and speak and think for Thee;
                                    still let me guard the holy fire,
                                    and still stir up thy gift in me.

                                    Ready for all Thy perfect will,
                                    my acts of faith and love repeat,
                                    till death thy endless mercies seal,
                                    and make my sacrifice complete.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Os cristãos existem para lutar

Não, não. Não se refere, o título deste post, a uma qualquer luta bélica. Refere-se a palavras de Leão XIII presentes na sua encíclica Sapientiae Christianae. Para este pontífice o cristão é alguém que não pode hesitar em seguir a vontade de Deus, reconhecida e aceite como tal pela sua consciência adulta, mesmo que isso o leve a ter que aceitar ser marginalizado pela sociedade. Por outras palavras: se os hábitos sociais contradisserem aquela vontade divina, «resistir -- diz Leão XIII -- torna-se um encargo positivo e, assim, obedecer a tais pressões do "mundo" uma ofensa». E a verdade é que, cada vez mais, as mais distintas sociedades estão a instituir convicções que são opostas à verdade do amor.

Para se saber quais forças sociais são opostas a tal amor, Leão XIII afirma que os Católicos devem «fazer um estudo aprofundado da doutrina Católica». Uma vez imbuídos desta, é dever dos Católicos «defendê-la com coragem discernida» sempre que as circunstâncias o exijam. Estas duas vertentes daquela "luta" têm sido esquecidas por muitos baptizados. Ao mesmo tempo que o Concílio Vaticano Segundo apresentou uma "planta arquitectónica" sobre a Igreja, muitos Católicos foram perdendo um sentido distinto sobre o que é a sua identidade Cristã. Mais paradoxalmente ainda, quando foi publicado o Catecismo da Igreja Católica, muitos mais pararam de estudar aquela doutrina.

Leão XIII não esteve com pruridos. «Acobardar-se perante as forças que desejam que nos dissolvamos, sem identidade esclarecida, no meio dos não-crentes, ou guardar um silêncio cúmplice quando o Amor é atacado, não é ser Cristão». Palavras duras, sem dúvida, mas apenas para um Catolicismo de sofá, de comodidade aburguesada, de rendição perante aqueles que, com palavras vácuas e acções fortes, ofendem aquela verdade do amor. Vamos à "luta" com as armas do amor e da verdade?

sábado, 15 de outubro de 2011

Poesia (36) | William Blake - And did those feet

William Blake. O grande mestre do romantismo surrealista inglês regressa a este blog com And did those feet. Devido à sua referência a uma totalmente apócrifa referência a uma suposta visita de Jesus às Ilhas Britânicas, há quem deteste, há quem adore este texto colocado no prefácio dos eu épico Milton a Poem. Talvez a apreciação mais correcta deva ficar num meio termo a tender para o carro de fogo nele referido.


                                    And did those feet in ancient time

                                 And did those feet in ancient time,
                                 Walk upon England's mountains green:
                                 And was the holy Lamb of God,
                                 On Englands pleasant pastures seen!

                                 And did the Countenance Divine,
                                 Shine forth upon our clouded hills?
                                 And was Jerusalem builded here,
                                 Among these dark Satanic Mills?

                                 Bring me my Bow of burning gold;
                                 Bring me my Arrows of desire:
                                 Bring me my Spear: O clouds unfold!
                                 Bring me my Chariot of fire!

                                 I will not cease from Mental Fight,
                                 Nor shall my Sword sleep in my hand:
                                 Till we have built Jerusalem,
                                 In Englands green & pleasant Land

Mitos anti-católicos modernos

Já o sabemos. Dizem muitas coisas acerca do Catolicismo. Os media, cheios de jornalistas que se crêem estrelas de todo o saber, estão repletos de tais atestados do que é a Igreja Católica. Mas tais afirmações são, muitas das vezes, mais fruto de preconceitos do que de um conhecimento factual. Ao longo do ano que começa a estar a acabar fui anotando algumas das mais repetidas afirmações que denotam uma distorção, voluntária ou não, do que é o Catolicismo. Vejamos algumas que, pela sua boçalidade ignorante que gera uma nébula constituinte de verdadeiros mitos facilmente desmontados numa qualquer análise rigorosa da realidade, não merecerão sequer um comentário, mas apenas um suspiro de tristeza.


1) a Igreja Católica é misógina e abertamente contra as mulheres a quem abomina e persegue; 2) a maioria dos padres são pervertidos e/ou pedófilos que se servem da fragilidade das pessoas com que contactam; 3) o celibato é a causa de todos os escândalos sacerdotais em especial os ligados a comportamentos sexuais aberrantes; 4) os Católicos não pensam por si mesmos, mas seguem cegamente a opinião de uma autoridade eclesial externa à sua consciência; 5) a Igreja Católica é homofóbica e encoraja abertamente a descriminação das pessoas que decidem viver a sua sexualidade com outras do mesmo sexo;

6) a Igreja não permite o aborto e a contracepção para que existam mais pessoas para manipular e controlar; 7) a Igreja Católica abomina a sexualidade humana e tudo o que tem a ver com ela; 8) a Igreja Católica defende o direito à imigração para poder converter aqueles que vêm de "países não-católicos" ou para ficar do dinheiro que poderão fazer, em países mais desenvolvidos e economicamente pujantes, aqueles que vêm de "países católicos" mais pobres; 9) a doutrina da Igreja e as afirmações da ciência são totalmente incompatíveis pois a Igreja segue cegamente as afirmações, cientificamente erradas, de um livro escrito à milhares de anos; 10) a Igreja Católica está encapsulada no passado e é, desse modo, retrógrada e incapaz de ter algo a dizer ao mundo moderno.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Música (8) | U2 e BB King - When love comes to town

 
Eis aqui o regresso da temática das músicas com um odor Cristão a este blog. Desta feita seja permitido apresentar um dueto notável do grande guitarrista de blues BB King com a, não menos célebre, banda irlandesa U2 para a interpretação do belo, e bem movido, tema celebrativo da incarnação de Deus na nossa história When love comes to town. Deleitem-se.


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Poesia (35) | Jeanne Joannard - Mon Dieu, mon unique amour

Da poetisa francesa Jeanne Joannard aqui fica Mon Dieu, mon unique amour, poema vibrante de singulares assonâncias afectivas sobre a entrega de si ao Senhor da Vida. Texto piedoso, sem dúvida, mas cheio de uma coloração, por vezes táctil, temática que surge no fim de cada uma das silabas tónicas dominantes em cada verso. Para quem gosta do amor do Amor.

Mon Dieu, mon unique amour

                        Mon Dieu, je ne veux plus avoir d'autre bonheur
                        Que celui mis par vous désormais sur ma route.
                        Mieux que moi, vous savez sans doute
                        Ce que désire en vain mon cœur,
                        Mon Dieu, je ne veux plus avoir d'autre bonheur.
                        
                        Seigneur, je ne veux plus écouter d'autres voix
                        Que la vôtre et mon cœur réclame de l'entendre;
                        Elle est apaisante, elle est tendre,
                        Elle instruit et guide à la fois,
                        Mon Dieu, je ne veux plus écouter d'autres voix.

                        Seigneur, je vous choisis pour mon unique amour,
                        Vous seul êtes l'ami tout puissant et fidèle
                        De notre âme. A mon dernier jour,
                        Seigneur, vous aurez pitié d'elle
                        Car je vous ai choisi pour mon unique amour!

Pintura (5) | Andrea Mantegna - A lamentação de Cristo

Eis mais uma das mais singulares pinturas de inspiração Cristã: A lamentação de Cristo de Andrea Mantegna completa numa data imprecisa no último quartel do século XVI. Esta têmpera sobre tela coloca o espectador, diante de uma vertiginosa perspectiva, aos pés, aos incrivelmente realistas pés perfurados, de um frio cadáver de Cristo colocado, sob um fino lençol que não disfarça o volume dos seus genitais, sobre a marmórea pedra de unção.


Nesta notável obra do renascimento italiano, à esquerda do cadáver de Cristo vêem-se três figuras: ao centro temos Maria, a enxugar as suas lágrimas com um lenço; ao seu redor encontram-se João Evangelista a chorar e com as mãos em pose de oração; e, ao fundo, a porção de um rosto semi-escondido que, com toda a probabilidade, será de Maria Madalena. À direita do referido cadáver vê-se um pequena porção do chão a conduzir para uma divisão escura. O local do repouso definitivo? ou o nosso mundo entregue, neste momento em que o seu Senhor começa a jazer deposto, à escuridão? Não há respostas definitivas.

Conservado actualmente na Pinacoteca de Bari, esta obra é um hino à humanidade de Cristo, o Filho do Homem, uma figura sem simbolismos pictóricos marcantes à excepção de uma ténue auréola ao redor da cabeça, deposta para a sua esquerda, de um cadáver pesado e aparentemente inchado de Jesus. Este último aspecto é apenas um dos que expressam o enorme sofrimento que Jesus padecera antes da morte. Junto com ele, as feridas eruptivas dos cravos nos pés e mãos, bem como as fixas rugas de dor cristalizadas no seu rosto, e, enfim, a tensa ferida da perfuração no seu lado direito, não nos permitem esquecer o peso do seu amor e do nosso pecado.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O medo do silêncio

Sabemos muitíssimo bem que o progresso tecnológico, em especial nas áreas dos transportes e comunicações, fizeram as nossas vidas mais confortáveis. Isso é totalmente inegável. Mas também fez as mesmas mais obstipadas e frenéticas. As nossas cidades maiores, e até menores, são um corrupio de barulho de onde o silêncio parece ter fugido. O desenvolvimento dos media e da NET fez-nos mais próximos de todos. Mas apenas virtualmente: sabemos, da manhã à noite, o que se passa do outro lado do mundo, mas  ignoramos o nome de quem vive ao nosso lado.

Já há quem apenas consiga funcionar se estiver imerso em "música" -- se é que se pode chamar "música" a algumas das formas actuais de juntar sons -- e imagens pois a ausência destas desperta em si o medo do vazio. É como se uma dúvida os assistisse: Existirei se não ouvir mais nada senão a meu respirar? Junto com esta fobia do silêncio, vem a fobia da solidão -- mais "soledad" do que isolamento --.

Mas este contexto esvaziante e anestesiante do nosso silêncio interior já passou, por quem não sabe o que está a fazer a longo prazo, a ser um leitmotif do modo de ser crente nos nossos dias e, assim, encontramos quem só consegue rezar se uma musiquinha ou um textinho estiver a ser debitado nos seus ouvidos à medida que caminham no meio de estímulos visuais. Isto, deve-se arriscar a dizer mesmo que se pareça demodé, é um drama. Uma tragédia. De facto, quer o silêncio, quer a solidão, são, na sua vertente exterior e interior, o esteio da solidez espiritual. Só neles nos exprimimos na nossa nudez que acolhe a carinhosa roupagem comunicada pelo nosso Criador.

sábado, 8 de outubro de 2011

Cinema (4) | Rich Christiano - Time Changer

Pois é. Existem filmes que nem sequer desejam que saibamos que existem. Quem, na realidade, já ouviu falar deste Time Changer de Rich Christiano? Arriscaria apostar que poucos. Parece-me que já estou a ouvir umas moedas a caírem no meu bolso, não é verdade? 


Tendo estado nas salas de cinema em 2002, retrata, de forma singela, as consequências de um texto, escrito em 1890 por um teólogo próximo da teologia liberal, acerca da possibilidade de se reflectir sobre a moral Cristã sem referência a Cristo. Essas consequências estão bem patentes aos nossos olhos ao nosso redor nos dias de hoje e é, justamente, para isto que um seu colega, teólogo mais experiente -- interpretado pelo reconhecível Gavin MacLeod --, adverte de uma forma inusitada.


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Os sete cavaleiros da moral social

Tantos de nós arrepiam-se só de ouvir falar de moral. Mais ainda, talvez, de moral social católica. Mas talvez esteja na ocasião de conhecermos, de uma vez por todas, os sete cavaleiros da mesma. Isto é, os sete princípios estruturantes da nossa acção incarnada no mundo.

1) A nossa intervenção na sociedade tem na sua base a mais radical dignidade de todo o ser humano como um ser social infinitamente precioso aos olhos de um Deus que o cria à sua imagem; 2) Uma vez que a aceitação da Revelação e da Fé deve ser livre e voluntária, o contexto moral para a ordem social deve ser dado pela lei natural, isto é, pelos esteios de regulação da vida que podem ser aferidos pela razão; 3) A acção social deve estar sempre orientada para o bem comum da sociedade como um todo; 4) Devemos reconhecer, e dar a reconhecer, que uma sociedade saudável promove a propriedade privada no contexto do destino universal dos bens pois estes são um dom de Deus a toda a humanidade e não só a alguns.

5) A acção social, dentro do contexto que estamos a analizar, deve ser orientada pelo princípio de solidariedade, isto é, pela convicção profunda de que o "outro", para todos os efeitos, é parte intrinseca do "eu" e, desse modo, deve ser tido em conta em todas as minhas decisões e acções; 6) A acção social deve estar igualmente norteada pelo princípio da subsidiaridade que nos diz que cada instância social deve ser autorizada a fazer aquilo para que está capacitada sem ser, nessa sua acção, substituída por uma outra superior a si que, porém, tudo deve fazer para capacitar aquela para a sua intervenção; 7) Se assim é, é urgente reconhecer que as instituições intermediárias entre o estado e o individuo são absolutamente vitais para uma ordem social forte e fortalecida na medida em que estas enriquecem o conjunto social de uma forma de outro modo impossível.


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Poesia (34) | Geoffrey Hill - The Pentecost Castle

Regressando hoje à muito celebrada rubrica de poesia que aponta para temáticas relacionadas com o Deus Cristão, aqui fica um excerto The Pentecost Castle, 15 do poeta inglês, e professor de poesia em Oxford, Geoffrey Hill.


The Pentecost Castle

I shall go down
to the lovers’ well
and wash this wound
that will not heal

beloved soul
what shall you see
nothing at all
yet eye to eye

depths of non-being
perhaps too clear
my desire dying
as I desire

domingo, 2 de outubro de 2011

Qual humanismo no humanismo?

Desde há anos a esta parte um crescentemente aguerrido movimento "humanista" tem tentado, com grande azafama, denegrir a imagem dos crentes Cristãos mediante o ridicularizar da nossa fé. Fazem-no geralmente através da citação, fora do seu contexto histórico, textual e teológico, de micro-textos que, depois, interpretam de uma forma mecânica, fundamentalista e literal. Mas será que eles são genuínos humanistas ou hábeis manipuladores cheios de falsas pestanas verbais? Vejamos.

Desde logo eles rapidamente violam as suas próprias noções "humanistas" ao não mostrarem qualquer respeito humano pelas convicções dos seus oponentes. Isto, é evidente, de humano nada tem. A seguir consideram possuir o exclusivo da racionalidade, como se os Cristãos fossem pessoas desprovidas de sentido crítico ou, até, de razão e, assim, os únicos responsáveis por tudo o que de mal existe no planeta. Mais uma vez: de humano isto não tem nada.

Depois usam, nas suas pueris argumentações, mais tácticas de retórica bombástica do que a lógica e o pensamento justo e rigoroso. Onde está o humano aqui? Por seu lado, ao rejeitarem o conhecimento "pelo testemunho", estão a recusar admitir uma evidência por demais clara: a maior parte do nosso conhecimento humano vem... do testemunho. Nenhum de nós pôde, ou pode, ou poderá verificar se Colombo chegou às Américas em 1492. Isso está presente nos livros de História, mas só acreditamos em tal por um acto de adesão ao que nos dizem. Se negarmos esta via de acesso à verdade, ficar-nos-á algum humanismo verdadeiro?