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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

De trás para a frente

Somos todos ambiciosos. Nascemos assim: programados para, como as árvores, buscarmos a luz do sol mesmo que, se necessário for, à custa do que está ao nosso redor. Queremos viver reduzindo este a um mero sobreviver que arrasta consigo uma atitude de desconfiança, de prepotência, de coerção. Quem luta para estar à frente faz isso mesmo: luta e combate movido pela ambição concomitante da derrota dos demais a qualquer preço.

Contudo o pior talvez aconteça quando se lá está, isto é, quando se está na frente: não se olha "para trás", para os demais que passam, ainda mais, a serem considerados empecilhos para o estatuto vital e social que se adquiriu: tornam-se, assim, inimigos a dobrar - no duplo sentido desta palavra: a multiplicar por dois e a fazer curvar -. Mas inimigos invisíveis, ou seja, incapazes de se darem a ver como quem são e, assim, de os acolhermos para com eles se criar uma relação inter-pessoal que humaniza a realidade circundante.

O inverso é igualmente verdade e, na lógica do Evangelho, o mais correcto: só de trás para a frente se vê os demais, não se os estima como meros competidores e se pode colocar a vida à disposição dos mesmos para os servir com disponibilidade livre e alegre. Claro que estar atrás pode levar a ressentimentos e invejas, mas isso apenas porque ainda se está a pôr o assento tónico na ambição egocêntrica e não na autenticidade Cristã, na existência de mãos abertas e coração empático.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

E eu, quem digo que sou?

Quem sou eu? Andamos sempre a correr de lado para lado apenas para não sermos capazes de ser. Desse modo não sabemos quem somos. Claro que podemos perguntar aos demais o que eles pensam sobre nós, mas nunca nos dirão o que quer que seja sobre a nossa interioridade, sobre a nossa autenticidade, pois esta não está em nós, mas neles e eles, por este mesmo motivo, não a deslindam. Somos um buraco vazio, um sifão que puxa tudo o que pode para disfarçar o que não consegue conhecer. Somos não o que somos, mas o que querem dizer que somos.

E nesse caso acabamos sempre a carpir ou cantar o que somos aos demais como que a querer atraí-los para a nossa vacuidade de modo a, estando eles na mesma condição do que nós, nos sentirmos menos estranhos no nosso mundo. Mas a nossa intimidade não pode ser lascivamente exposta sem nos tornamos incapazes de a conhecer. Expondo-nos sem sabermos quem somos, acabamos por ser o que achamos que os demais querem que sejamos e, assim, não somos alguém, mas apenas algo.

Só se soubermos quem somos seremos  pessoas livres: livres de nós e dos demais; livres da nossa opinião e da dos demais. Livres para sermos ainda mais autenticamente quem somos. No fundo, tudo isto passa por se estar atento às modulações de fundo do nosso potencial de amar, o nosso modo de sermos imagens do Deus que é Amor. Isso não se anuncia aos sete ventos, mas vive-se na discrição da humildade disponível.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A complexidade do ver

Há ver e ver; há ver e ir e há ver e voltar. Se com o mar o melhor é poder voltar, com o ver, o óptimo é não regressar: é fazer do ver um vector de relações autênticas com os demais, não para os converter no centro da nossa curiosidade egocêntrica, mas para fazer deles o fio-de-prumo da nossa pessoa. Ver, neste sentido, é desfolhar as aparências que cobrem os demais neste mundo de estuque e entrar cuidadosamente na sua autenticidade.

Os demais não são instrumentos para a nossa personalização: isso seria instrumentá-los. São, isso sim, a nossa própria personalização. Esta ocorre apenas numa lógica de intercâmbio inter-relacional em que, na onda do dar e acolher, reproduzimos o que de mais fundamental existe no Deus que é Amor. A nossa própria pessoa, a nossa própria vida só são genuínas se formos capazes de ver segundo aquele padrão de decapagem que instaura um diálogo de autenticidades depostas.

Ver, neste contexto, é, então, complexificar a existência tornando-a mais lisa de repuxos e rugas: em nós e nos demais. É ser um vedor da verdade, daquela verdade que ressuscita a partir da nossa humildade, da nossa pequenez que vê o outro "de baixo" e jamais "de cima" para, sem receios da nossa mirada, ele deixar-se acolher na nossa aceitação, aquela que apenas busca neles o reflexo do Amor que, nos fazendo pessoa, os torna mais pessoas.

sábado, 18 de setembro de 2010

Livros (3) | Javier de la Torre - Anticonceptivos y ética

Regresso, neste momento, à apresentação de livros para uma mínima biblioteca Cristã para os nossos dias. E faço-o através de um livro que aborda um tema que, ao longo da nossa história recente, imensas feridas provocou nas relações com, e percepções da, Igreja magisterial: o da regulação da natalidade.


Para o efeito deixo aqui a referência a uma obra na minha opinião notável e surpreendente: Javier de la Torre - Anticonceptivos y ética. O autor, professor de direito, bioética, e moral Cristã na Universidad Pontificia de Comillas e autor de inúmeros textos de grande relevo e interesse, é das pessoas mais habilitadas, em todos os aspectos, para tratar desta temática. E fá-lo de um modo simultaneamente acessível e penetrante, sem deixar nada de lado nesta sua pequena publicação.

Esta obra divide-se de acordo com dois objectivos claramente perceptíveis: Em primeiro lugar, deseja situar devidamente a reflexão dos métodos de prevenção da concepção dentro de uma longa história de métodos e opiniões morais sobre a anti-concepção. Em segundo lugar, aspira apresentar, a partir de uma perspectiva concreta e não meramente nocional, um conjunto de critérios que possam ajudar na elaboração de discernimentos adequados para a apreciação moral adulta e responsável das decisões anti-conceptivas num contexto Cristão, isto é, num contexto de amor gerador de verdade e autenticidade inter-relacional.

domingo, 12 de setembro de 2010

O difícil perdão

Hoje as brasas estiveram sobre o "perdão". Como é difícil perdoar. Todos o sabemos, pois todos estamos agarrados a nós mesmos: ao que pensamos ser verdade sobre dado evento, ao que sentimos, às feridas reais ou imaginárias que carregamos, à convicção de que somos justos e correctos. Mas a verdade é outra: só des-agarrando-nos conseguimos ser porquanto só perdoando se é. Só colocando-se de lado o que, até de um modo sincero se vive, se pode ser de um modo autêntico.

A autenticidade não tem nada a ver com o que surge do apego às camadas de pele exógena que se cola à verdade da nossa pessoa. A autenticidade é ser em perdão. É ser em abdicação do que vivemos como um reforço do que nos faz viver apegados ao que herdamos de uma pré-programação na qual nada interviemos com a nossa liberdade. É ser em movimento, em transferência de dom, em projecção de bem.

Mas tudo isto é aparentemente desnatural, anormal. A aparência é bem real. nós não somos o que somos, mas o que podemos ser: não somos naturais nem normais, mas transnaturais e transnormais, não por uma cedência da natureza ou da normalidade, mas pelo descobrir estas onde ela está na realidade: adiante e acima de nós: nos outros e no Outro que nos com-constituem na nossa genuinidade.