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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

De trás para a frente

Somos todos ambiciosos. Nascemos assim: programados para, como as árvores, buscarmos a luz do sol mesmo que, se necessário for, à custa do que está ao nosso redor. Queremos viver reduzindo este a um mero sobreviver que arrasta consigo uma atitude de desconfiança, de prepotência, de coerção. Quem luta para estar à frente faz isso mesmo: luta e combate movido pela ambição concomitante da derrota dos demais a qualquer preço.

Contudo o pior talvez aconteça quando se lá está, isto é, quando se está na frente: não se olha "para trás", para os demais que passam, ainda mais, a serem considerados empecilhos para o estatuto vital e social que se adquiriu: tornam-se, assim, inimigos a dobrar - no duplo sentido desta palavra: a multiplicar por dois e a fazer curvar -. Mas inimigos invisíveis, ou seja, incapazes de se darem a ver como quem são e, assim, de os acolhermos para com eles se criar uma relação inter-pessoal que humaniza a realidade circundante.

O inverso é igualmente verdade e, na lógica do Evangelho, o mais correcto: só de trás para a frente se vê os demais, não se os estima como meros competidores e se pode colocar a vida à disposição dos mesmos para os servir com disponibilidade livre e alegre. Claro que estar atrás pode levar a ressentimentos e invejas, mas isso apenas porque ainda se está a pôr o assento tónico na ambição egocêntrica e não na autenticidade Cristã, na existência de mãos abertas e coração empático.

sábado, 18 de setembro de 2010

Colaboração

A verdadeira grandeza de Deus não é exaltada pela diminuição da real grandeza do homem. Esse é um erro de todos os tempos e de todos aqueles que pensam que aquelas opõem-se e que a afirmação de uma implica a redução da outra.

A verdade, porém, é outra. O Criador desejou, quis, deliberou, escolheu livremente que a humanidade colaborasse com Ele na realização do seu desígnio, no seu plano, na persecução do seu fito plenamente bondoso. Assim, a grandeza de Deus, apesar de não ser aumentada um átomo que seja na sua dimensão essencial, resplandece mais quando as criaturas assumem, de um modo igualmente livre, o seu papel naquele fito.

Deus dá-se de um modo gratuito ao longo da história de amor entre Si e a humanidade; cada ser humano, por seu lado, acolhe, de um modo ou de outro e em função das circunstâncias vitais em que vive e para as quais as suas opções colaboraram, aquela auto-doação divina condicionando, assim, a plena efectividade da doação do Criador. Este, com efeito, não força ninguém, mas espera, desejando ardentemente, que lhe abramos a porta do nosso coração para que, com a nossa colaboração, a sua presença possa, depois, frutificar devido ao seu próprio potencial.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Aceitar o perdão

Se perdoar é difícil, aceitar o perdão pode ser mil vezes mais complicado. Em primeiro lugar isso requer, pelo menos implicitamente, a percepção de se ter feito algo que lesou outrem, que feriu aquele que nos diz, verbalmente ou de outro modo, "eu te perdoo". Como isso nos fere! Como isso nos põe em causa! Ser perdoado é colocar um dedo no nosso coração e fazê-lo vibrar a um ritmo diferente daquele em que, geralmente, ele oscila. Ser perdoado des-orbita a nossa existência e leva-nos a questionar as nossas percepções da realidade.

O perdão, com efeito, diz-nos: "há um outro modo de ver a realidade; há uma outra forma de te veres". Mas este modo novo, esta forma nova de percepcionar a existência é um colocar em causa a existência, a "ex"-"stare", o "estar posto aí"... ele agita-nos e faz-nos perder o norte habitual para nos apontar uma outra Estrela Polar, uma estrela que brilha não mais no nosso umbigo, mas no rosto do outro. Aceitar o perdão é acolher a inevitabilidade de passarmos pelo estar perdido, pelo entrar numa "terra incognita" que tem a sua única segurança na humildade e verdade das intenções desarmadas daquele que vem restabelecer algo que até poderíamos não saber que havíamos rompido.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O esplendor do amor

Erguendo-se como um cordão umbilical entre a criação e o Criador, está um enigmático objecto que se estende por toda aquele conferindo-lhe a sua própria estrutura de sustentação. Enigmático, sem dúvida, pois não nos deixa, comummente, ver o que o mesmo representa. Ficamos, devido a um somatório de causas mais ou menos articuladas entre si, apegados ao acessório e o essencial, esse inacessível aos olhos da face, passa-nos  inadvertidamente ao lado.

O esplendor do amor, assim, permanece oculto sob uma camada  imensa de discrição e humildade que gera e alimenta a nossa liberdade. Nada de ostentação sedutora, mas quase um convite para seguirmos em frente passando a uma boa distância. Para se parar há que o desejar fazer. Para para e ver aquele esplendor é preciso querer forçar o olhar e estimular as íris do coração para penetrar nas brumas das aparências e deixar vir até nós, na cruz, a porta de ligação com o Outro nelas oculto a pedir a nossa compaixão que nos ressuscita.