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sábado, 23 de outubro de 2010

O sentido da oração

Todos já nos deparámos com pessoas que, estando a passar momentos difíceis, se ressentiam por Deus, aparentemente, estar a dizer "não" ou "espera". Eu mesmo por vezes penso o mesmo. Pedir não está errado e a Bíblia diz-nos que há coisas que não temos porque não pedimos (Tiago 4,2).  O problema está em se pensar que se sabe o que é melhor para nós e para os demais. 

Mas a Bíblia  também nos diz claramente que nós não sabemos o que solicitar na oração (Romanos 8,26). Ou melhor: bem no fundo até o sabemos, mas não o desejamos admitir. Sabemos que só o amor nos sacia e só ele está garantido de nos ser dado por Deus, pois Ele é Amor. Contudo preferimos sonhar com remendos imediatos que, se nos fossem dados, apenas iriam alimentar o nosso egoísmo, a fonte da nossa tendência para nos afastarmos do bem, da verdade, do belo; em síntese: do amor.

Assim podemos compreender que o desfecho por nós desejado de um pedido a Deus não é necessariamente o melhor desfecho para nós. E admitir isto deve levar a que, quando rezamos, devemos ser incrivelmente humildes. De facto, vemos apenas uma porção pequena do todo e conhecemos ainda menos, donde devemos reconhecer que o essencial na oração não é que Deus faça a nossa vontade, mas que por ela tentemos perceber qual é a vontade de Deus para a integrar na nossa vida.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Os escândalos e a Bíblia

Somos todos os dias bombardeados com escândalos e mais escândalos: na esfera política, empresarial e até eclesial. Quase que já perdemos a nossa capacidade de indignação e de denúncia. Mas o que é que a Bíblia diz sobre esta realidade tida numa perspectiva geral? Em primeiro lugar não nos devemos surpreender que as pessoas se comportem mal: conhecemos as nossas próprias fraquezas e os demais não são diferentes de nós. As pessoas comportam-se de um modo escandaloso devido ao pecado que deriva de uma incapacidade de colocarem o amor acima do egoísmo.

Depois, a Igreja, como o Novo Israel que é, sempre teve, tem e terá os seus detractores que, por serem frequentemente incapazes de arguirem positivamente contra nós, optam, consciente ou inconscientemente e tal como Cristo predisse que aconteceria, por agirem precisamente contra o que ela advoga. E fazem-no sem se aperceberem que, ao o fazerem, estão a enveredar por um caminho de desumanização pessoal e social.

Finalmente, Deus opera, pontual e ocasionalmente, para purificar a sua Igreja, através de mais ou menos intensas sessões de quimioterapia, em que o químico usado é precisamente a visibilidade forçada de alguns actos indecorosos dos seus membros. Deus na Bíblia, com efeito, serve-se frequentemente dos arautos da denúncia para forçar Israel a encarar, finalmente, os problemas que tinha entre mãos e que tentava, a todo o custo, ignorar ou varrer pateticamente para debaixo da carpete.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O enigma da vigilância

Parece que, usualmente, não pensamos que esta viva perecível, por o ser, não é o tudo a que estamos chamados. A nossa meta definitiva, não sendo inseparável do que na caducidade logramos, não se confunde com isso, mas projecta-se para um mais além que se encontra na própria vida de Deus. Esta vida é como uma longa gestação em que devemos aprender a conviver no seio de Quem, se agora nos sustenta, também nos educará quando para Ele nascermos plenamente.

A morte, esse elemento tão natural e refrescante como o beber da mais fresca e cristalina água, é esse parto absolutamente certo. Contudo, frequentemente, esquecemos que teremos, um dia, que sair do ambiente em que nos encontramos actualmente. Embebidos nos afazeres de uma existência tão complexa, perdemos a noção de que devemos estar vigilantes às texturas da existência para nos preparamos para a hora em que tivermos, por vezes em circunstâncias inesperadas, que começar a berrar a plenos pulmões por apenas podermos respirar a atmosfera de Deus: o amor.

Estar vigilante não é estar obcecado com o que fazemos ou devíamos ter feito: é estar com os olhos postos nas impressões divinas que a nós advêm diariamente como sinais de transito no meio de uma viagem. É pôr, com essa força que nos alenta que é a esperança, os olhos nos alertas que continuamente nos recordam que somos mais do que parecemos ser. E que, assim, devemos projectar a nossa existência para um mais de sentido que um dia até nós virá.

domingo, 17 de outubro de 2010

O apostolado na blogosfera

A blogosfera é quase tão antiga quão a Internet. Há bem mais de 150 milhões de blogs de acordo com uma recente estimativa. Se no início a blogosfera era um lugar reservado a especialistas dos computadores e da tecnologia, ela é, agora, respeitavelmente povoada por todos os tipos de pessoas. É verdade que o tom da blogosfera está muitas vezes cheio de raiva e em ocasiões não sem motivo. Mas é possível agir de modo diferente: é possível ser construtor da verdade, da honestidade, da transparência, da humanização e, assim, da sociedade cristificada sem enveredar por aqueles excessos, antes fazendo-se do blogar um humilde modo de serviço e apostolado Cristão.
 
Com efeito, muito daquele tom excessivo deve-se frequentemente ao facto de muitas pessoas se terem voltado para os blogs porque não foram ouvidas, porque as suas preocupações não estão a ser escutadas ou, se o estão, não são levadas a sério. Com paciência, respeito, amor e justiça é possível acolher, com as nossas palavras, a estas não só na rede, mas também nos nossos corações e, assim, evangelizar quer aquelas, quer esta.

Como mais e mais pessoas migraram para a Internet para discutir temas caros ao seu coração, começa a fazer cada vez mais falta, no espaço lusitano, uma blogosfera Católica animada, elevada e argumentativa. Seja para debater o que, normalmente, não se ouvem os prelados dizer; seja para ampliar a mensagem Cristã a novos horizontes; seja para refutar as mais desagradáveis e injustificadas críticas dirigidas ao Catolicismo em particular e ao Cristianismo em geral. Este espaço, este blog, deseja ser um pequeno contributo para isso mesmo e ele é, também, um espaço seu. Use-o.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Aquelas palavras duras

Por vezes supreendemo-nos com algumas palavras duras de Jesus. Temos frequentemente a ideia de que Ele é apenas um compincha bonacheirão sempre disposto a uma gargalhada compassiva em todas as circunstâncias. Mas como estamos enganados. Cristo é nosso amigo, mas não cúmplice nos nossos devaneios que nos apartam de Deus e Este, Deus, é Pai, mas não um paizinho.

A vida Cristã, a vida em seguimento responsável de Jesus, é exigente, é árdua, é delicada: não é um passeio à beira-mar a beber uma caipirinha como por vezes dão a entender aqueles que, em vez de darem a conhecer o Evangelho, preferem moldá-lo a seu bel-prazer para não perderem os "fãs".

Há comportamentos com os quais, mesmo compreendendo-se o motivo pelos quais outros os realizaram, não se pode ser passivo. Se com as pessoas se deve estar sempre disposto a investir numa nova oportunidade, com o que elas fazem, e tal como Cristo evidenciou, há que ter a coragem de, frequentemente, dizer "isso não; estás enganado; por aí não vou". Não por aversão àquele que o está a fazer, ou o fez, ou quer fazer, mas, pelo contrário, por se gostar do mesmo. Toda a relação verdadeira é exigente e exigente, em primeiro lugar, connosco face ao bem dos demais.

sábado, 9 de outubro de 2010

A lealdade racional do Catolicismo

Por vezes perguntam-nos, a nós Católicos, os motivos de o sermos como se isso fosse um estranho fenómeno cada vez mais raro, sobretudo porque pressupõe-se que isso comporta um prescindir da racionaldiade. Mas nada de mais errado: como Católicos somos pessoas sempre chamadas a projectar o nosso intelecto no debate dentro e fora da Igreja. O rigor e a lealdade não são mutuamente exclusivos.

A lealdade pressupõe, com efeito, aquela disposição, caso contrário seria um assentimento acrítico e indigno do valor da pessoa humana, a qual requer que, juntamente com a disponibilidade para se pôr a razão a operar, se deixe aberta a possibilidade de se ser surpreendido até com as suas próprias conclusões. O Catolicismo é um assentimento racional leal. Caso contrário converte-se numa falsa lealdade de dentes cerrados e punhos encrespados que levaria ao fanatismo que vemos noutras religiões ou, então, num intelectualismo encerrado no próprio egocentrismo.

Par se evitarem estes extremos danosos - ou seja, o cinismo e a complacência desmedida que se fecha ao mistério do Amor - deve-se insistir numa evangelização que promova uma lealdade que realce a aplicação da razão para que o seu valor seja ponderado e vice-versa. Quando o intelectualismo sadio e a lealdade adulta se abrem mutuamente um à outra, a compreensão é alargada e enriquecida e está-se, finalmente, capacitado a dar as razões da nossa esperança.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O pequenino rebanho

O tempo de uma Igreja de massas mais numerosas do que formadas já lá vai para, felizmente em minha opinião, não mais regressar. Estamos na madrugada do assumir-se, de novo e tal como no início do Cristianismo, do "pequenino rebanho" de que falava com emoção Jesus. Se a Igreja recebeu o mandato de evangelizar todo o mundo, esta realidade pode parecer contrastante com o sadio desejo de, por norma, se querer aumentar o número daqueles que aceitam Jesus como seu Deus e Senhor de amor, mas isso é apenas aparente sobretudo se estivermos, também pelo que tem dolorosamente acontecido nos últimos tempos, a ficar mais puros e verdadeiros num mundo que está a ficar, voluntariamente, mais afastado de Deus.

Na realidade a popularidade tem sempre um preço demasiado caro a ser pago e, assim, uma Igreja que apenas pensa em ser atractiva a todo o custo está no caminho errado. Por outro lado Cristo não nos prometeu uma fecundidade fácil, mas apenas aquela que advém pelo perecer na terra de um mundo infantilizado que nos odeia por sermos faróis de uma verdade que lhe custa a admitir. Desse modo, devemos cansar-nos a anunciar o Amor, mas aceitar que muitos, senão quase todos, recusem esse mesmo Amor, preferindo amorzinhos domesticados dele sucedâneos. Há, então, que conjugar o empenho e a aceitação do eventual fracasso, mas jamais confundir o "poucos, mas puros" com um "dolce fare niente" acomodado.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O percurso menos trilhado

Qual é o percurso menos trilhado? A resposta é simples: o do amor. Todos queremos correr e chegar mais cedo do que os demais a qualquer meta a que nos propomos. Mas, no caminho do amor, ou chegamos todos juntos ou não chega ninguém à meta comum. Somos todos membros de um mesmo corpo, de um corpo que já viu a sua Cabeça humano-divina nascer para Deus, mas que tem, ainda, o resto do corpo em trabalho de parto. E queremos apreçar o nascimento mesmo que não estejamos preparados para viver a respirar no âmbito de uma atmosfera toda ela feita de Amor.
 
Somos, neste processo, apertados por um mundo de onde nascemos e do qual herdamos traços característicos que, embora devamos continuar a carregar, devemos, igualmente, superar. E superar com determinação corajosa de modo a passarmos de uma existência que nos é imputada, para outra que assumimos livremente. Eis, de novo, o caminho menos percorrido: o do amor que só existe onde existe liberdade real e efectiva.

E a liberdade é uma realidade corporativa: ninguém é livre por si só ou de costas voltadas para os demais, isto é, independentemente da liberdade destes. Só somos livres onde, e quando, os demais também o forem. E no meio daquela pressa raramente damos tempo a estes e, por conseguinte, estatelamo-nos na vida e boicotamos o nosso desejo de atingirmos a nossa última meta, a única que pode, por desejo antecipativo, iluminar e burilar as demais metas provisórias que determinam as nossas opções e atitudes.

domingo, 3 de outubro de 2010

A luz da sombra

Há quem imagine o Antigo Testamento (A.T.) como uma espécie de sombra que atemoriza tudo, e todos, excepto se a sua obscuridade for engarrafada pelo recurso a passagens iluminadoras retiradas do Novo Testamento (N.T.). Em certo sentido estou de acordo com eles, pois o A.T. é o começo da narração religiosa judaico-cristã da obscuridade humana, da penumbra da alma de uma humanidade que  obscurece se se afastar de Deus.

Mas  não penso que a luz esteja apenas no N.T.: acredito, com efeito, que o A.T. é igualmente o começo da narração do brilho. Ele projecta-o no caminho d'Aquele que faria sua aquela realidade para, desde dentro, dar-Se como caminho para dela a humanidade sair. Desse modo, o A.T. é essencial para se compreender a mensagem d'Este que, no fundo, não é senão um aperfeiçoar da daquele mediante uma interpretação em chave de Amor.

Uma analogia muito prosaica com esta realidade é facilmente apresentada. Todos gostamos de conhecer a história da própria família. Conhecer, de algum modo, os ditos e feitos dos nossos antepassados, nas suas zonas de luz e sombra, é reconhecer-se a si mesmo de um outro modo. De uma forma que lança lastro numa série de partilhas de vida que nos antecedem e que, assim, são verdadeiras raízes do nosso ser. Do mesmo modo, ignorar o A.T. é ignorar o N.T. e, assim, ignorar o que é ser Cristão.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A invisibilidade do milagre

Também nós estamos sempre à espera de milagres. De milagres que dêem, se tal fosse possível, segurança à nossa fé. Desconhecedores que somos, frequentemente, dos motivos para a termos, preferiríamos sinais ostensivos que nos tirassem todas as dúvidas, à humilde e discreta presença do verdadeiro milagre que nos envolve a todo o momento. Mas será que paramos para pensar nisto? Será que paramos para constatar que a alternativa, no fundo, é entre a liberdade e a segurança psicológica? Provavelmente não, mas o mais estranho é que sinto que não poucos de nós acabaríamos, insensatamente, por preferir esta àquela.

Do mesmo modo, existe uma segunda alternativa: entre um Deus que é Amor e um Deus que é um tirano. Se Deus é Amor a sua acção não pode ser senão humilde e discreta, também para nos possibilitar uma existência em plena liberdade. Só se Deus fosse semelhante a um déspota medieval, ou a um qualquer político contemporâneo, sempre preocupado em ter satélites ao seu redor para deles retirar benefícios para si, é que a sua acção seria uma contínua campanha de marketing que aprisionaria toda a beleza.

O maior milagre que existe é, desse modo, o da continuamente subtil presença, em cada instante e local e com plena pureza, de Deus à sua criação. Mas para sermos capazes de constatar tal facto devemos sair do zapping comercial e sintonizar a nossa "powerbox" para a frequência de Deus: a do amor que suscita liberdade e desejo de dar, e não de receber, benefícios.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Actualidades (2) | O peso da verdade

Nos dias de hoje não há muitas pessoas que primem pela coerência de discurso. Vemos isso quotidianamente nos políticos que andam por aí a desgovernar em função (do camuflar de) os seus interesses pessoais. Vemos isso nos paladinos de algumas religiões em que o ocultar a verdade é um dever moral em certas circunstâncias. Vemos isso, para não ir mais longe, no nosso coração sempre que nos apetece parecer mais do que aquilo que somos. Mas há pessoas que são diferentes: pessoas que, assim, carregam o estigma da incompreensão; do serem visados por grupos que se afirmam o estandarte da "tolerância" excepto diante daqueles que pensam e agem de modo oposto ao seu; do serem o alvo de uma aversão que tem mais decibéis públicos do que consistência argumentativa.


Quer gostemos dele ou não, e haverão talvez motivos para alguns não gostarem totalmente dele, uma dessas pessoas é o actual papa Bento XVI. Falando em nome de uma mensagem intemporal de que não é o dono, mas o humilde mensageiro, a sua voz clara e intelectualmente desafiante é das poucas que trazem o peso da verdade nas palavras que a compõem. Sabemos onde estamos com ele; podem discordar dele e até o apelidarem de obscurantista, mas sabe-se o que ele pensa e que este não muda de um dia para o outro.

A sua coragem moral no meio de um mundo que crê numa verdade flutuante é fora do comum. Bento XVI não segue o caminho mais largo e fácil do dizer aos demais o que eles, a partir de uma lógica egocêntrica e ainda não totalmente personalizada (porquanto a verdadeira pessoa é aquela que está centrada no outro), querem ouvir. Ele clama o que eles precisam e, mesmo sem o saberem, querem ouvir sem se preocupar com a popularidade barata a que dão eco os media. Se os seus brilhantes discursos ofendem os membros de outras religiões; de grupos que se afirmam os mais "tolerantes" e "avançados"; dos media que, incapazes de descortinar a sua mensagem pois vivendo na lógica dos "enlatados" visuais, distorcem e devassam mil e uma vezes a sua figura e mensagem; isso não é motivo para ignorar, e fazer ignorar, o que ele diz vendo-o apenas de costas.


E se tais discursos provocam reacções violentas, a responsabilidade real de tais acções está nos corações e mãos de quem as comete, pois cada um é o responsável últimos pelo que decide fazer ou não. É, isso sim, motivo para exercitarmos um maior esforço de atenção para o entender. Mas nos dias de hoje não se quer ter tempo para isso. A sua coragem e verdade não mascaradas assustam. Claro que assustam: não estamos habituados a isso, mas por isso mesmo devemos ouvi-la com maior atenção. O mundo tem o direito de nos amar ou odiar: esse é o peso da mensagem de amor do Evangelho, mas não deve ter o direito de nos silenciar, muito menos em especial se dizemos a verdade e estamos dispostos a conversar sobre ela com quem connosco discorda.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Os incendiarios

Eliminar os obstáculos não é o mesmo que incendiar aqueles que os geram, mas é frequente que surja a tentação de misturar estas duas realidades. E o motivo é simples: é muito mais fácil pensar numa existência sem os suscitadores de dificuldades do que numa existência sem dificuldades mas com aqueles que, num dado momento, nos criam, ou podem criar, obstáculos. 

Mas para sermos pessoas e não apenas "gente" devemos sempre amar as pessoas por mais que devamos criticar e até repudiar algumas das suas acções. O individuo não se confunde com as suas acções. Jamais. O valor daquele é infinito, o destas não. Se aquele, com os demais, gera uma rede vital, estas dão origem tão somente uma entidade abstracta que se cristaliza, é verdade, numa dada orientação que é imprimida à criação, mas não se confundindo com esta.

Claro que nós também somos o que fazemos, mas somos, igualmente, muito mais do que isso. E é por o sermos que surge aquela tentação imatura de não tanto querermos enfrentar os obstáculos, mas mais quem os levanta: sem estes aqueles, sejam presentes ou futuros, desapareceriam pois desapareceriam as fontes das suas acções que nos criam adversidades. Mas estas são, estranhamente, um meio para a nossa humanização pois revelam os limites da nossa existência e nos recordam que o mais difícil que podemos ter que fazer é amar aqueles que nos desestimam e "pisam os calos", pois só assim somos efectivamente semelhantes a um Criador que a todos ama.

domingo, 26 de setembro de 2010

Nem isso lhes deixamos

Não o devemos ocultar até porque é uma das maiores constantes da vida. Não os vemos. Não os ouvimos. Não os acolhemos. Não os servimos. Não os humanizamos tornando-os pessoas. Passamos ao lado deles bem ao largo como que para não sermos contagiados por aquilo que eles são: uma denúncia do que somos.: almas desalmadas que somente os consideramos para confortar a dor, mais ou menos convencional, daquilo a que chamamos consciência, mas a que Deus chama "caixa de reverberação da minha voz".

São ainda um sinal de que o plano do Criador para a criação poderá falhar se continuarmos na nossa comodidade galopante que nos entorpece a cada instante. Mas o pior é que não lhes deixamos, sequer, ser aquilo que são: pobres, indigentes, necessitados. Retiramos-lhes esse epíteto para nos remetermos para o horizonte daqueles que não são recriminados por Cristo nos Evangelhos. Ocultamos a nossa realidade para nos disfarçarmos aos nossos olhos, já de si cegos por imensidades de ofuscam a verdade, e, num mesmo movimento de tenaz, furtar-lhes a identidade que nos poderia converter e humanizar.

Desse modo até acumulamos bens - neste caso aquele designativo que roubamos a quem o carrega com autenticidade - empobrecendo-nos ficcionalmente para não escutarmos aquela "caixa de ressonância" que continuamente emite o som de que é aos indigentes que o Senhor da voz que nela vibra ama. Não devido a quem são eles, mas por ser Ele Quem é: Amor. Não basta, assim, dar-lhes um qualquer supérfluo barato, mas devemos começar por não lhes tirarmos o essencial que aos olhos de Deus é tão caro.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

E eu, quem digo que sou?

Quem sou eu? Andamos sempre a correr de lado para lado apenas para não sermos capazes de ser. Desse modo não sabemos quem somos. Claro que podemos perguntar aos demais o que eles pensam sobre nós, mas nunca nos dirão o que quer que seja sobre a nossa interioridade, sobre a nossa autenticidade, pois esta não está em nós, mas neles e eles, por este mesmo motivo, não a deslindam. Somos um buraco vazio, um sifão que puxa tudo o que pode para disfarçar o que não consegue conhecer. Somos não o que somos, mas o que querem dizer que somos.

E nesse caso acabamos sempre a carpir ou cantar o que somos aos demais como que a querer atraí-los para a nossa vacuidade de modo a, estando eles na mesma condição do que nós, nos sentirmos menos estranhos no nosso mundo. Mas a nossa intimidade não pode ser lascivamente exposta sem nos tornamos incapazes de a conhecer. Expondo-nos sem sabermos quem somos, acabamos por ser o que achamos que os demais querem que sejamos e, assim, não somos alguém, mas apenas algo.

Só se soubermos quem somos seremos  pessoas livres: livres de nós e dos demais; livres da nossa opinião e da dos demais. Livres para sermos ainda mais autenticamente quem somos. No fundo, tudo isto passa por se estar atento às modulações de fundo do nosso potencial de amar, o nosso modo de sermos imagens do Deus que é Amor. Isso não se anuncia aos sete ventos, mas vive-se na discrição da humildade disponível.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A complexidade do ver

Há ver e ver; há ver e ir e há ver e voltar. Se com o mar o melhor é poder voltar, com o ver, o óptimo é não regressar: é fazer do ver um vector de relações autênticas com os demais, não para os converter no centro da nossa curiosidade egocêntrica, mas para fazer deles o fio-de-prumo da nossa pessoa. Ver, neste sentido, é desfolhar as aparências que cobrem os demais neste mundo de estuque e entrar cuidadosamente na sua autenticidade.

Os demais não são instrumentos para a nossa personalização: isso seria instrumentá-los. São, isso sim, a nossa própria personalização. Esta ocorre apenas numa lógica de intercâmbio inter-relacional em que, na onda do dar e acolher, reproduzimos o que de mais fundamental existe no Deus que é Amor. A nossa própria pessoa, a nossa própria vida só são genuínas se formos capazes de ver segundo aquele padrão de decapagem que instaura um diálogo de autenticidades depostas.

Ver, neste contexto, é, então, complexificar a existência tornando-a mais lisa de repuxos e rugas: em nós e nos demais. É ser um vedor da verdade, daquela verdade que ressuscita a partir da nossa humildade, da nossa pequenez que vê o outro "de baixo" e jamais "de cima" para, sem receios da nossa mirada, ele deixar-se acolher na nossa aceitação, aquela que apenas busca neles o reflexo do Amor que, nos fazendo pessoa, os torna mais pessoas.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Chamados à luz

Não devemos ter dúvidas: não há, por um lado, pecadores e, por outro, não-pecadores. Somo-lo todos e  aqueles de nós que o mais são, são, precisamente, os que não se reconhecem como tal; os que, empoleirados na sua errónea percepção de auto-suficiência, não se dão conta de que estão feridos, os que estão lesados na sua própria estrutura pessoal sem se darem conta que vivem carentes de uma realidade que os complemente e leve à plena realização humana.

A medida do humano não é apenas o humano: é não ter medida; é ter esta no Infinito que nos chama até Ele pela constante insatisfação que move o nosso coração e que, ao mesmo tempo, até nós vem no mesmo acto em que nos cria numa existência toda ela constituída como receptora de uma doação transbordante de amor.  Com efeito, somos, todos, chamados, a cada momento, da sombra da auto-constituição para a luz da livre relação que nos molda numa lógica de seguimento ilimitado.

Deus está mais à vontade com os que se sabem pecadores, os que se reconhecem como carentes de um excesso de bondade, do que com os que não abrem o seu coração à percepção da sua fragilidade. Assim, somos o que for a nossa resposta a este apelo interior realizado pela presença amorosa do Criador no coração da nossa pessoa; o que for a nossa não descriminação dos demais que, como nós, apenas precisam de, no meio do turbilhão de eventos que é a sua vida, acolher tal chamamento misericordioso e agir em conformidade com o mesmo.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Brilhar no escuro

Nada de ostentação, nada de chamar a atenção ostensivamente para o que se faz, nada de se pôr como o umbigo do mundo. Tudo deve ser feito com conta, peso e medida tal como é criado, em cada instante, o Universo. Sobretudo deve ser feito de modo a poder germinar com plena fecundidade, com a mesma fecundidade enaltecida por Aquele que disse que o que fazemos deve ser feito sem daí desejarmos retirar alguma forma de reconhecimento público.

A maior visibilidade desta fecundidade, assim e paradoxalmente, é a nossa invisibilidade. É a lógica do amor, a lógica do grão: só debaixo da terra, invisível aos olhos do mundo, é que ele dá origem à espiga, essa sim, fecundamente visível para os demais. Só agindo numa lógica de incarnação, de entrada real nas circunstâncias de um mundo que nos levará à morte a todas as nossas seguranças, é que aquilo que fazemos adquire uma visibilidade que não se reporta a nós, mas Àquele que se dá, por nós e em nós, aos demais.

Quão mais desejamos ser reconhecidos, menos Este é conhecido: tornámo-nos opacos ao Criador, verdadeiro foco da fecundidade das nossas acções, e os demais apenas conseguem ver a nós. Deixamos de ser sinais que remetem para a origem da nossa vida e convertemo-nos em "buracos negros" que obscurecem a força gravitacional que sustém a nossa existência e a nossa operatividade: o amor divino. Desejamos que a nossa lâmpada - a nossa efectividade - brilhe para glória do Amor? Sustentemo-la e escoremo-la com a nossa discrição.

domingo, 19 de setembro de 2010

Elogio da pequenez

Ser pequeno é ser maior, é ser atento ao importante, é confiar naquele que, de facto, em nós confia. Ser pequeno é ver o mundo como o  verdadeiro humilde o vê, isto é, de baixo para cima, colocando o valor e a altura da  dignidade naquele que está diante de nós e não no nosso umbigo. 

Ser pequeno é estar atento ao invisível, ao que não ofusca a nossa atenção, mas discretamente solicita a nossa percepção. Ser pequeno é aceitar ser alvo do ridículo, do escárnio, da incompreensão que inevitavelmente acompanha a voz daqueles que se crêem a medida da verdade e da humanidade.

Ser pequeno é viver suspenso no momento presente, é viver na gota da eternidade que é o presente contínuo do Criador, do Deus-Amor que nos suscita a cada momento a partir do nada que somos sem Ele. Ser pequeno é ser maior: é perscrutar o mundo com os olhos bem abertos em busca dos veios e filões das suas potencialidades, das suas operatividades, das suas virtualidades que esperam, e desesperam, que as humanizemos com a nossa humanidade deposta nas mãos que nos aquecem em toda as circunstâncias.

sábado, 18 de setembro de 2010

Livros (3) | Javier de la Torre - Anticonceptivos y ética

Regresso, neste momento, à apresentação de livros para uma mínima biblioteca Cristã para os nossos dias. E faço-o através de um livro que aborda um tema que, ao longo da nossa história recente, imensas feridas provocou nas relações com, e percepções da, Igreja magisterial: o da regulação da natalidade.


Para o efeito deixo aqui a referência a uma obra na minha opinião notável e surpreendente: Javier de la Torre - Anticonceptivos y ética. O autor, professor de direito, bioética, e moral Cristã na Universidad Pontificia de Comillas e autor de inúmeros textos de grande relevo e interesse, é das pessoas mais habilitadas, em todos os aspectos, para tratar desta temática. E fá-lo de um modo simultaneamente acessível e penetrante, sem deixar nada de lado nesta sua pequena publicação.

Esta obra divide-se de acordo com dois objectivos claramente perceptíveis: Em primeiro lugar, deseja situar devidamente a reflexão dos métodos de prevenção da concepção dentro de uma longa história de métodos e opiniões morais sobre a anti-concepção. Em segundo lugar, aspira apresentar, a partir de uma perspectiva concreta e não meramente nocional, um conjunto de critérios que possam ajudar na elaboração de discernimentos adequados para a apreciação moral adulta e responsável das decisões anti-conceptivas num contexto Cristão, isto é, num contexto de amor gerador de verdade e autenticidade inter-relacional.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Livros (2) | François Brune - Hélas! Qu'avons-nous fait de Son Amour?

Regressando à rubrica da apresentação de alguns livros que estimo verdadeiramente relevantes para os nossos dias, tenho o imenso gosto de me referir a uma pequena pérola francesa que infelizmente é comummente desconhecida, totalmente desconhecida, num Portugal onde as publicações de livros religiosos sucedem-se com critérios editoriais nem sempre facilmente descortináveis.


Refiro-me ao livro de François Brune, sacerdote da Companhia de Saint-Sulpice especialista em línguas antigas e estudos bíblicos bem como em temas de "confronto" como o esoterismo, Hélas! qu’avons-nous fait de Son Amour? Trata-se de um conjunto de mais de trezentas páginas em que somos confrontados com aquilo que, apesar de ser por demais evidente, raramente paramos para constatar, seja na sua existência, seja nas implicações desta: a Igreja, por diversos motivos que lançam as suas raízes num passado em que se estava mais preocupado com a manutenção do que com a evangelização, não consegue fazer passar a mensagem de que Deus é Amor e nada mais do que Amor.

Daqui, e quase que só daqui, é que surgem os imensos problemas que a Igreja parece acumular para aqueles que não a conhecem devidamente, mas antes a desejam percepcionar a partir dos critérios com que se medem as actividades das demais realidades. Para se inverter esta situação, o autor preconiza um regresso ousado às fontes mais autenticas da vida eclesial: a Bíblia e a Tradição. Não à Tradição composta por  uma sucessão de áridos teólogos de "gabinete", mas à nutrida por aqueles que de um modo mais peculiar viveram Deus: os mestres da espiritualidade Cristã.