Eliminar os obstáculos não é o mesmo que incendiar aqueles que os geram, mas é frequente que surja a tentação de misturar estas duas realidades. E o motivo é simples: é muito mais fácil pensar numa existência sem os suscitadores de dificuldades do que numa existência sem dificuldades mas com aqueles que, num dado momento, nos criam, ou podem criar, obstáculos.
Mas para sermos pessoas e não apenas "gente" devemos sempre amar as pessoas por mais que devamos criticar e até repudiar algumas das suas acções. O individuo não se confunde com as suas acções. Jamais. O valor daquele é infinito, o destas não. Se aquele, com os demais, gera uma rede vital, estas dão origem tão somente uma entidade abstracta que se cristaliza, é verdade, numa dada orientação que é imprimida à criação, mas não se confundindo com esta.Claro que nós também somos o que fazemos, mas somos, igualmente, muito mais do que isso. E é por o sermos que surge aquela tentação imatura de não tanto querermos enfrentar os obstáculos, mas mais quem os levanta: sem estes aqueles, sejam presentes ou futuros, desapareceriam pois desapareceriam as fontes das suas acções que nos criam adversidades. Mas estas são, estranhamente, um meio para a nossa humanização pois revelam os limites da nossa existência e nos recordam que o mais difícil que podemos ter que fazer é amar aqueles que nos desestimam e "pisam os calos", pois só assim somos efectivamente semelhantes a um Criador que a todos ama.
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