Não devemos ter dúvidas: não há, por um lado, pecadores e, por outro, não-pecadores. Somo-lo todos e aqueles de nós que o mais são, são, precisamente, os que não se reconhecem como tal; os que, empoleirados na sua errónea percepção de auto-suficiência, não se dão conta de que estão feridos, os que estão lesados na sua própria estrutura pessoal sem se darem conta que vivem carentes de uma realidade que os complemente e leve à plena realização humana.
A medida do humano não é apenas o humano: é não ter medida; é ter esta no Infinito que nos chama até Ele pela constante insatisfação que move o nosso coração e que, ao mesmo tempo, até nós vem no mesmo acto em que nos cria numa existência toda ela constituída como receptora de uma doação transbordante de amor. Com efeito, somos, todos, chamados, a cada momento, da sombra da auto-constituição para a luz da livre relação que nos molda numa lógica de seguimento ilimitado.
Deus está mais à vontade com os que se sabem pecadores, os que se reconhecem como carentes de um excesso de bondade, do que com os que não abrem o seu coração à percepção da sua fragilidade. Assim, somos o que for a nossa resposta a este apelo interior realizado pela presença amorosa do Criador no coração da nossa pessoa; o que for a nossa não descriminação dos demais que, como nós, apenas precisam de, no meio do turbilhão de eventos que é a sua vida, acolher tal chamamento misericordioso e agir em conformidade com o mesmo.

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