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domingo, 3 de outubro de 2010

Teólogos (5) | Tommaso De Vio

Na rubrica em que aqui refiro aqueles nossos antepassados na fé que se destacaram como teólogos, hoje deixo algumas palavras sobre Tommaso De Vio. Sacerdote da Ordem dos Pregadores, dominicano pois, mais conhecido por ter sido a pessoa encarregue de dissuadir Lutero dos seus intentos renovadores "de fora para dentro" - encontro que a imagem abaixo representa -, é, não obstante, muito mais do que isso.


Destacado pensador e diplomata, Tommaso foi um dos mais empenhados defensores das prerrogativas pontifícias face aos intentos do Concílio de Pisa e dos mais corajosos apologistas do Catolicismo numa Alemanha dilacerada pelos intentos dos movimentos protestantes. Notável foi, de facto, a sua intervenção na Assembleia Imperial de Frankfurt de 1518. Apoiando-se nos avanços teológicos de Tomás de Aquino, renovados através de uma ainda incipiente exegese crítica da Bíblia, foi um grande comentador de quase todos os textos bíblicos.

Comentou, ainda, já enquanto Bispo e Cardeal, e a encargo de distintos Papas, a obra de Tomás de Aquino de um modo sistemático nos seus "Commentaria in Summam Theologiam" de modo a contrapor as teses Católicas às novidades teológicas luteranas. Este facto, aliado ao grande zelo e austera piedade, que em muito se contrapunham aos usos habituais de um episcopado mais acomodado do que empenhado, conferiu à sua acção uma eficácia apostólica quase ímpar durante os anos em que a sua acção configurava, e firmava, as orientações papais no âmbito do Império Germânico.

domingo, 26 de setembro de 2010

Teólogos (4) | Romano Guardini

Hoje apresento, na secção dedicada aos teólogos cristãos, o escritor ítalo-germano Romano Guardini, tornado famoso, ao longo de quase todo o século XX, através de obras absolutamente memoráveis como “Vom Geist der Liturgie” e “Der Herr”.


Capaz de elaborar estudos verdadeiramente poderosos em temas tão tradicionais quão desafiantes, foi sempre alguém que tentou conjugar a teologia com o pensamento moderno e contemporâneo mediante profundos diálogos com as posições de autores como Pascal, Kierkegaard e Nietzsche. Também por isso, o seu contributo para a mensagem do Vaticano II é inquestionável. Pessoa afável e simultaneamente exigente, foi sempre admirado pelos seus contributos para a teologia, o ecumenismo, a vida espiritual, a filosofia, a pedagogia e a arte, facto pelo qual não é de admirar que entre os seus seguidores encontremos nomes tão significativos como Karl Rahner e Joseph Ratzinger.

Sendo o seu pensamento inseparável da sua acção pastoral e da sua vida interior, todo ele é de uma extrema humildade e simplicidade, a mesma simplicidade e humildade que o fizeram recusar o cardinalato poucos anos antes de falecer. A sua vida foi, de facto, não uma ânsia de tudo perscrutar no âmbito da teologia, mas de aclarar e de decifrar, a realidade Cristã no seu conjunto dentro do horizonte inseparável em que esta se encontra: a realidade como um todo, a realidade como meio de encontro com Deus, com os outros e consigo de um modo equilibrado e criativo.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Teólogos (3) | Francisco de Vitoria

Nascido na década de 80 do século XV no norte de Espanha, o teólogo que tenho o gosto de apresentar hoje é um dos maiores inspiradores da escola teológica de Salamanca. Refiro-me a Francisco de Vitoria, sacerdote da Ordem dos Pregadores.


Apoiando-se, sobretudo, na "Summa Theologiae" de Tomás de Aquino e nas "Sententiae" de Pedro Lombardo, elabora uma grande síntese moral adaptada às condições sociais e económicas existentes da primeira parte do século XV. Especialmente relevantes, devido ao impacto das suas teses, são as temáticas da possibilidade da existência de lucros e da relação entre as fontes e os limites das autoridades civil e eclesiástica. Teorizou, ainda e no seu "De potestate civili", acerca dos fundamentos do direito internacional com o seu desejo do estabelecimento de uma comunidade de povos alicerçada sobre o direito natural que devia reger os limites da acção dos distintos estados.

Juntamente com Bartolomé de las Casas, e com o seu tratado "De Indis", converteu-se num dos mais relevantes defensores dos direitos dos habitantes nas Américas. Segundo ele, e contra a opinião generalizada entre os colonos Cristãos apenas de nome, estes não eram seres inferiores, mas possuíam, todos, os  mesmos direitos que os demais seres humanos. Deste modo, para Francisco de Vitoria, eles eram os donos legítimos das suas terras e dos seus bens em todos os locais e momentos.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Teólogos (2) | Jean Gerson

Depois de Pedro Canísio, retornamos no tempo, desde o século XVI até à charneira entre os século XIV e seguinte, para apresentar um extraordinário teólogo francês: Jean Charlier de Gerson. Chanceler da Universidade de Paris e teorizador da mística Cristã, a quem tentou conceptualizar com relativo sucesso, ficou famoso igualmente pelo seu papel no movimento conciliarista e pela proximidade do seu pensamento com algumas teorias do voluntarismo divino de William of Ockham.


Esforçou-se, ainda, elaborar um caminho contrário ao acima referido, isto é, introduzir alguma mística na teologia, tentando conferir a esta a uma dimensão psicológica inevitavelmente inseparável das experiências místicas tal como se pode ver na sua "De mystica theologia, speculativa et practica". De facto estimava que a teologia devia ser uma teologia afectiva que ensinava como a vontade do crente devia renunciar a si mesma para se identificar com a divina que dava a plena significação àquela sem, contudo e como se pode ver em "Admonitio de vita Christi", enveredar por um quietismo voluntarista.

Teólogo que segue, concomitantemente, a via negativa e a mística, Gerson preconiza, para a união com Deus, diversos preceitos: uns ascéticos e outros místicos que levam às mais frutuosas experiências contemplativas, a que chama de "scientia experimentalis". Estas devem ser acolhidas ao mesmo tempo que se recusam os fenómenos espirituais fora do comum porquanto estes, mais frequentemente, são ilusões fontes de equívocos que perturbam a caminhada espiritual.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Teólogos (1) | Pedro Canísio

Começamos hoje uma outra rubrica. Com ela pretendo falar, sempre brevemente, de alguns dos nossos irmãos que precedendo-nos dedicaram a sua vida à ciência teológica, ao estudo científico da história de amor entre o Criador e as suas criaturas, o estudo do longo noivado que culminou no matrimónio da Incarnação-Páscoa do nosso Senhor todo amoroso.


Principiamos com Peter Kanis, Pedro Canísio. Este jesuíta holandês do século XVI, o primeiro da sua pátria a entrar na Companhia de Jesus, foi um incansável apóstolo do Catolicismo nos países do centro da Europa. Conhecido, sobretudo, pela redacção dos seus catecismos - o "Grande Catecismo" e o "Pequeno Catecismo", versão reduzida daquele, publicados em latim e alemão -, através dos quais deseja refutar os princípios da Reforma Protestante de um modo análogo ao usado na sua actividade: com paciência, caridade e uso dos benefícios tecnológicos como a imprensa, pois, segundo ele, o progresso tecnológico pode e deve ser posto ao serviço do Reino.

Numa altura em que a afectividade já começava a sobrepor-se à intelecção, a sua posição pragmática e lógica para a devoção mariana católica é um exemplo de sobriedade ternurenta para aquela que deu à luz o Filho eterno de Deus incarnado. O amor àquela é, com efeito, fruto e consequência do amor a Este: ninguém ama um amigo sem se interessar verdadeiramente pela vida dos seus.