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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Os cristãos existem para lutar

Não, não. Não se refere, o título deste post, a uma qualquer luta bélica. Refere-se a palavras de Leão XIII presentes na sua encíclica Sapientiae Christianae. Para este pontífice o cristão é alguém que não pode hesitar em seguir a vontade de Deus, reconhecida e aceite como tal pela sua consciência adulta, mesmo que isso o leve a ter que aceitar ser marginalizado pela sociedade. Por outras palavras: se os hábitos sociais contradisserem aquela vontade divina, «resistir -- diz Leão XIII -- torna-se um encargo positivo e, assim, obedecer a tais pressões do "mundo" uma ofensa». E a verdade é que, cada vez mais, as mais distintas sociedades estão a instituir convicções que são opostas à verdade do amor.

Para se saber quais forças sociais são opostas a tal amor, Leão XIII afirma que os Católicos devem «fazer um estudo aprofundado da doutrina Católica». Uma vez imbuídos desta, é dever dos Católicos «defendê-la com coragem discernida» sempre que as circunstâncias o exijam. Estas duas vertentes daquela "luta" têm sido esquecidas por muitos baptizados. Ao mesmo tempo que o Concílio Vaticano Segundo apresentou uma "planta arquitectónica" sobre a Igreja, muitos Católicos foram perdendo um sentido distinto sobre o que é a sua identidade Cristã. Mais paradoxalmente ainda, quando foi publicado o Catecismo da Igreja Católica, muitos mais pararam de estudar aquela doutrina.

Leão XIII não esteve com pruridos. «Acobardar-se perante as forças que desejam que nos dissolvamos, sem identidade esclarecida, no meio dos não-crentes, ou guardar um silêncio cúmplice quando o Amor é atacado, não é ser Cristão». Palavras duras, sem dúvida, mas apenas para um Catolicismo de sofá, de comodidade aburguesada, de rendição perante aqueles que, com palavras vácuas e acções fortes, ofendem aquela verdade do amor. Vamos à "luta" com as armas do amor e da verdade?

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Os sete cavaleiros da moral social

Tantos de nós arrepiam-se só de ouvir falar de moral. Mais ainda, talvez, de moral social católica. Mas talvez esteja na ocasião de conhecermos, de uma vez por todas, os sete cavaleiros da mesma. Isto é, os sete princípios estruturantes da nossa acção incarnada no mundo.

1) A nossa intervenção na sociedade tem na sua base a mais radical dignidade de todo o ser humano como um ser social infinitamente precioso aos olhos de um Deus que o cria à sua imagem; 2) Uma vez que a aceitação da Revelação e da Fé deve ser livre e voluntária, o contexto moral para a ordem social deve ser dado pela lei natural, isto é, pelos esteios de regulação da vida que podem ser aferidos pela razão; 3) A acção social deve estar sempre orientada para o bem comum da sociedade como um todo; 4) Devemos reconhecer, e dar a reconhecer, que uma sociedade saudável promove a propriedade privada no contexto do destino universal dos bens pois estes são um dom de Deus a toda a humanidade e não só a alguns.

5) A acção social, dentro do contexto que estamos a analizar, deve ser orientada pelo princípio de solidariedade, isto é, pela convicção profunda de que o "outro", para todos os efeitos, é parte intrinseca do "eu" e, desse modo, deve ser tido em conta em todas as minhas decisões e acções; 6) A acção social deve estar igualmente norteada pelo princípio da subsidiaridade que nos diz que cada instância social deve ser autorizada a fazer aquilo para que está capacitada sem ser, nessa sua acção, substituída por uma outra superior a si que, porém, tudo deve fazer para capacitar aquela para a sua intervenção; 7) Se assim é, é urgente reconhecer que as instituições intermediárias entre o estado e o individuo são absolutamente vitais para uma ordem social forte e fortalecida na medida em que estas enriquecem o conjunto social de uma forma de outro modo impossível.


domingo, 24 de outubro de 2010

O bullying e a atenção aos pequeninos

Ali estava Jesus, atento e disponível, a dar todo o seu tempo àqueles pequeninos que queriam estar perto dele. As crianças têm dessas coisas: parecem intuir quem é um coração verdadeiramente bondoso e generoso. Mas hoje parece que não se deseja estar atento a elas e camufla-se um flagelo com o qual quase todos já nos deparamos: o bullying. Aqui fica, a partir de uma leitura bíblica do que é esse fenómeno, a denúncia de alguns mitos associados a ele.


1) O bullying não é facilmente observável: a maldade é, apesar de até querer buscar a visibilidade, cobarde e medrosa; 2) Os agressores não são facilmente identificáveis: o mal, socialmente inteligente como é, é um talentoso camaleão que mistura a maior agressividade psicológica com a mais angelical pose; 3) Os agressores não são impopulares e não têm baixa auto-estima: ser agressivo dá recompensas sociais notáveis: atenção, "carisma", mais "amigos" e poder.

4) Os nossos filhos também podem enveredar pelo bullying: a agressão não é, apesar de tudo, o pior problema; a sua negação é-o; 5) O bullying não é um problema isolado: é uma consequência não só de uma natureza humana ferida na sua capacidade de encontrar o caminho para o bem, mas igualmente do meio ambiente conscientemente falso, agressivo, prepotente, arrogante que grassa nas sociedades que perderam o "norte" dos valores orientadores. Mais ainda numa sociedade, também como a nossa, que já incorpora vizinhos e conhecidos que crescem com uma axiologia totalmente diferente da que nasceu à luz dos "10 mandamentos" e do "Sermão da Montanha".

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Actualidade (6) | A miopia voluntária II


(b) Depois, o arcebispo belga diz que a SIDA é, talvez (palavra a que os senhores jornalistas não dão qualquer importância), uma forma de justiça imanente. Saberão os senhores jornalistas o que isto quer dizer? Não quer dizer que Deus (justiça transcendente) esteja a castigar os doentes com aquele flagelo. Isso é o que se deseja dar a entender na notícia, mas os factos não o corroboram. Deseja-se, isso sim, dizer que, sendo a sexualidade também um acto natural, todo o comportamento irresponsável a ela associado tem consequências graves igualmente a nível da natureza que podem (eis de novo o "talvez") estar, por exemplo, a sustentar a propagação da SIDA. Se tanta gente diz que as tragédias climáticas são uma forma da natureza se reequilibrar fazendo justiça aos exageros da actividade humana, nada mais de estão a dizer, por palavras menos rebuscadas e cultas, que «talvez os desastres ecológicos sejam uma forma imanente de justiça».


Mas alguém alguma vez veio dizer que estes senhores estão a demonizar as vítimas dos tornados, furacões ou saraivadas? Alguém veio dizer que se tratam de alarvidades insultuosas? Alguém o disse quando os dirigentes religiosos de outras religiões disseram, por exemplo, que os terramotos são consequência das mulheres andarem de mini-saia? E já agora, qual o motivo de não se dar tamanha importância aos textos fundantes de algumas religiões que, seguidos ainda hoje segundo o espírito em que foram escritos - e não o podendo deixar jamais de o ser -, apelam à morte de homossexuais? Quem demoniza quem? Eis ainda outra miopia voluntária grave que demoniza os Cristãos.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Actualidade (5) | A miopia voluntária I

Surgiu, há dois dias, no jornal "Público" mais um exemplo daquilo em que se têm tornado alguns media ditos ultra-progressistas e ultra-liberais - outros chamar-lhes-iam de "cristianofóbicos" -. Refiro-me à notícia referente a umas palavras de um arcebispo belga Católico, André Leonard, e ao editorial a estas dedicado que são um exemplo consumado de uma epidemia corrente nos dias de hoje: a miopia voluntária grave que demoniza os Cristãos.

André Leonard profere, segundo o "Público", três conjuntos de palavras tidas como inadmissíveis nos dias de hoje: «a anormalidade do comportamento homossexual (se deve) a um bloqueio verificado durante o desenvolvimento psicológico normal»; que a SIDA «talvez se trate de uma justiça imanente» e que aquela doença é uma «consequência de uma sexualidade livre entre adultos».

Pondo de lado a questão da homossexualidade, vou centrar, hoje e amanhã, a atenção nas palavras sobre a SIDA. E faço-o apenas por dois motivos: (1) ao facto da própria notícia centrar-se nesta questão tal como se pode ver pelo título da mesma; (2) ao facto de que, apesar da perspectiva Católica da homossexualidade ser uma das preferidas catapultas para todos os ódios contra a Igreja, a verdade é que as críticas, às palavras e acção da Igreja relativas à homossexualidade, quase sempre ignoram, numa miopia voluntária grave que demoniza os Cristãos, a diferença entre inclinação homossexual e comportamento homossexual que está, por sinal, na base daqueles pronunciamentos e daquela prática.

(a) Em primeiro lugar, e começando pelas últimas palavras, apenas tenho a dizer que, linhas antes de elas surgirem no livro de onde foram retiradas, o arcebispo belga diz: «o verdadeiro amor livre deve ser igualmente responsável, caso contrário não é livre nem, em consequência, é amor». Como é fácil citar fora de contexto para veicular um pretexto. Se se tivesse em consideração estas palavras voluntariamente omitidas, a mensagem de André Léonard, que deve saber destes assuntos mais do que qualquer jornalista do "Público", parece clara e incontestável: uma sexualidade apenas livre, e não igualmente responsável, dá origem a comportamentos de risco susceptíveis de perpetuar a transmissão da SIDA. Não se está a condenar a sexualidade livre, mas a advertir que aquela que não é também responsável alimenta o flagelo da SIDA.


Alguém duvida disso? Algum jornalista do "Público" que seja pai e mãe de família não educa os seus filhos para uma sexualidade sadia e responsável? Ou diz-lhes apenas "andai, sois livres, fazei, nas palavras de Correia, o truca-truca onde e quando quiserdes sem cuidado nenhum"? O facto de, tal como afirma o citado editorial, haver pessoas que são contaminadas pela SIDA «por via sexual sem se terem exposto a comportamentos de risco» não elimina a verdade radical daquelas palavras. E o querer dar a entender o reverso é como dizer que não é preciso, ou que é perigoso, alertar para os perigos da condução sem o uso do cinto de segurança apenas porque há pessoas que morrem em acidentes de viação mesmo usando cintos de segurança. E jamais a Igreja, como insinua o editorial, proíbe o uso de preservativo em toda e qualquer circunstância. Irresponsável, por outro lado, é querer negar que, de facto, o uso do preservativo não é solução (embora possa ser, como admite a Igreja, uma das soluções) para o combate à SIDA, pois inúmeras pessoas são infectadas por vias não sexuais. Eis outra miopia voluntária grave que demoniza os Cristãos.

sábado, 16 de outubro de 2010

O temor de se dizer crente

Falava-se, há uns anos, da ideia de "cristãos anónimos", isto é, de pessoas que, sem conhecerem Jesus Cristo e a sua mensagem, agiam verdadeiramente de acordo dos valores Cristãos. Talvez não seja totalmente descabido pensar que existem pessoas assim. Mas talvez fosse de se evitar tal denominação para os descrever e reservá-la para aqueles de entre nós, Cristãos, que receamos mostrar-nos e assumir-nos, com todas as consequências daí derivadas, como seguidores de Cristo no espaço público.

Ser Cristão na comodidade do lar e da consciência é relativamente fácil, mas trata-se de algo que não abraça todas as esferas da existência pessoal. Assim cria uma alienígena separação artificial - que até serão saudáveis noutras esferas de actividade - entre o privado e o público que leva a que como que desaparecêssemos da sociedade. Se isso já é uma realidade penosa em todas as circunstâncias, mais o é numa altura como a nossa em que a sociedade precisa de ser, mais uma vez, de ser suportada, desde dentro, pelos valores que erguem a humanidade à sua real dignidade.

No fundo, estou a crer que tal deve-se a uma de diversas razões: (a) receio de se ser tido como antiquado, como se a mensagem Cristã fosse uma espécie de fóssil jurássico inapropriado para os nosso dias; (b) impreparação para dar, aos demais, as razões da nossa opção vital por Cristo; (c) receio de perder estatuto e relevância numa sociedade cada vez mais crítica de alguns comportamentos, sejam eles expressão ou não do verdadeiro Cristianismo, que são, justa ou injustamente, criticados com aversão viperina. Em qualquer um dos casos tratam-se de motivos que negam, ao serem alimentados consciente ou inconscientemente, os dois esteios do agir Cristão: o anunciar e o denunciar.