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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Livros (9) | Walter M. Miller, Jr. - A Canticle for Leibowitz

Eis aqui a apresentação daquela que é considerado o melhor livro de ficção cientifica de sempre: A Canticle for Leibowitz de Walter M. Miller Jr.. Já ouviram falar dele? Já o tiveram em mãos? Já o leram no idioma original ou numa qualquer tradução -- a editora Europa-América publicou uma tradução em 2000 com o título de Um Cântico a Leibowitz --? Talvez não e o motivo é simples: trata-se de um livro católico em que a Igreja é o próprio protagonista.


Efectivamente, ele é sobre a Igreja do futuro, após uma eventual Terceira Guerra Mundial que deixou o mundo cheio de radioactividade e aversão à tecnologia, à ciência, à cultura. O autor, profundamente era católico, baseou-se, para a redacção deste seu único romance publicado durante a sua vida, numa imagem que o impressionou fortemente aquando das suas missões militares durante a Segunda Guerra Mundial: o bombardeamento do grande mosteiro beneditino de Monte Cassino, Itália. Deste modo, é num mosteiro católico, no deserto do sudoeste dos Estados Unidos, que os monges de uma ficcional ordem Albertina de Leibowitz assumem a missão de preservar os restos dos conhecimentos humanos naquelas áreas até que o mundo exterior esteja outra vez preparado para eles.

Num tom realista, que deve abominar os seguidores ingénuos e utopistas da New Age -- basta ver o pouco sucesso do filme A Estrada de John Hillcoat baseado nesta obra --, mas igualmente esperançoso, os grandes valores da vida humana são preservados a um enorme custo num fim rematado com um surpreendente suspenso mariano. Cheio de um humor surpreendente num texto tão denso, nunca deixou de ser reimpresso todos os anos e em todos os países de língua oficial inglesa. E isto não obstante abordar temas bastante controversos ao longo destes últimos 40 anos: o confronto entre a Igreja e o Estado e a tese da inevitabilidade cíclica da história humana.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Livros (8) | Peter Stilweel - O meu primeiro Jesus

Apresento hoje, na secção desde blog dedicada a alguns livros que eu considero como essenciais para uma mínima biblioteca Cristã para se viver a fé com coragem e formação, um primeiro livro de um autor português: o padre Peter Stilweel, professor de teologia na Universidade Católica Portuguesa e director, a esta data, da faculdade de teologia desta no pólo de Lisboa. Refiro-me a O meu primeiro Jesus.


Trata-se de uma pequena mas incrivelmente deliciosa obra que, de um modo assaz original, deseja apresentar a figura de Jesus Cristo sob a perspectiva de um conjunto de pequenas estórias baseadas em algumas histórias do Novo Testamento. Há primeira vista parecem narrações inocentes e quase que inconsequentes, mas na realidade são muito mais do que isso. De facto, são breves mas penetrantes relatos que, com uma subtil capacidade de reverberação psicológica, desejam muito mais suscitar questões do que apresentar soluções imediatas sobre Jesus. E é a partir destas questões que se pode construir uma mínima figura de Jesus Cristo através do que é dito igualmente mediante a referência a figuras como, por exemplo, o jovem que fugiu nú do Jardim das Oliveiras, Simão o Leproso, a mulher que parte um frasco de bálsamo, Maria, o jovem rico.

Construído a partir do relato da paixão, morte e ressurreição de Jesus, trata-se um texto que lança sólidas raízes na própria concepção bíblica de "evangelho", isto é, de boa nova, mas recuperando a dinâmica própria da literatura epistolar que também encontramos no Novo Testamento. Também isto conduz a uma leitura agradável de um texto composto numa linguagem familiar que faz tocar as campainhas do "déjà vue" apenas para fazer desentranhar o espanto pela surpresa contínua que salta de cada página. De cada página que compõem uma história que está prenhe do desejo de poder fazer reviver o que levou à própria composição do Novo Testamento: o ser contada e recitada, de crente em crente, de alma amante a alma amante.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Livros (7) | Scott Hahn - The Lamb's Supper: The Mass as Heaven on Earth

Eis um livro,  The Lamb's Supper: The Mass as Heaven on Earth de Scott Hahn, que deve ser lido por todos os Cristãos em geral, mas por todos os leigos Católicos em particular. Por isso, é com imenso gosto que aqui o apresento na secção deste blog dedicada a sugerir um número mínimo de leituras essenciais para  um Cristão informado e formado dos nossos dias.


Começando por uma sólida reflexão sobre a perspectiva bíblica da presença de Cristo na Eucaristia, esta obra é uma brilhante reflexão sobre o livro do Apocalipse, com a sua narração de uma liturgia paradisíaca, e a celebração litúrgica na Igreja Católica, a única que antecipa verdadeiramente aquela. De facto é notável descobrir, neste texto de um dos mais brilhantes teólogos Católicos da actualidade, que na base do modo actual de celebração eucarística no Catolicismo se encontra o desejo, já presente nos mais antigos escritos Cristãos pós-biblicos, de se reproduzir os eventos presentes no Apocalipse e, de igual modo, no texto denominado "Carta aos Hebreus".

Tratado com um curioso sentido de humor, que aqui e além, tira algum peso ao volume de conhecimento veiculado em todo o livro, esta obra é um guia para que, finalmente, mesmo as pessoas menos preparadas teologicamente possam sair da Eucaristia a dizer "até que enfim que tudo faz sentido": desde as suas partes constituintes, à noção da comunhão dos santos que a deve perpassar plenamente. Também por isso este breve livro é um óptimo guia para a vida de oração de quem, nos nossos dias, sente, por um lado, um sólido desejo de aprofundar a sua vida Cristã e, por outro, reconhece estar tão submerso em ocupações que pouco tempo encontra para o fazer. A oração Cristã, relembra-nos este livro de um modo directo, simples e inteligente, não se reduz a cinco momentos diários, mas é uma disposição de fundo que, alicerçada na Refeição do Cordeiro, lança eco nas mais distintas circunstâncias do dia a dia, fazendo-as referirem-se à celebração celeste que irromperá, igualmente, pela santificação das actividades humanas. A ler de modo celebrativo. Urgentemente.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Livros (6) | Jean-Pierre Denis - Pourquoi le Christianisme fait scandale

Jean-Pierre Denis, editor do semanário francês "La Vie", é o autor deste provocante Pourquoi le Christianisme fait scandale que aqui apresento hoje na secção de livros deste blog vocacionada para propor um conjunto mínimo, muito mínimo, de livros que ilustram a complexa realidade do que é ser Cristão nos dias de hoje.


Não é necessário estar de acordo com tudo o que é apresentado nesta obra, mas a realidade é que a mesma ilustra, como poucas o complexo mecanismo de uma sociedade que passou a estar centrada sobre o que, no passado e na sua origem, esteve nas suas margens, com o inerente empurrar do centro para as periferias. De facto, o que era contra-cultural passou a ser a cultura dominante e os valores suscitados por uma civilização impregnada pelo Cristianismo, precisamente aqueles que permitiram esta mutação, passaram a ser contra-culturais. E isto é um desafio para um Cristianismo instalado comodamente nos pufs de uma existência de subsistência, a caminho de uma implosão cada vez mais evidente, e não de evangelização activa pela positiva.

Não é que não se possa dialogar com esta realidade. Pelo contrário: ela também precisa de ser evangelizada, mas somente se poderá lograr esse fito se se assumir, com coragem, que é necessário redescobrir o carácter naturalmente contra-cultural do Cristianismo, aquele precisamente que faz do Cristão um objector perante as ondas da  normalização forçada das opiniões. Essa é a responsabilidade presente que é exigida ao Crente Cristão em todos os campos da nossa existência. É para esse "abrir de olhos" que este livro contribui.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Livros (5) | Robert J. Spitzer - New Proofs for the Existence of God

Hoje deixo aqui, com entusiasmo, um livro recente de Robert J. Spitzer chamado New Proofs for the Existence of God: Contributions of Contemporary Physics and Philosophy. Num contexto de uma crescente popularidade de certos livros escritos por gurus do agnosticismo e ateísmo, esta obra trata-se de uma patente demonstração, que aqueles desejam sistematicamente ignorar, de todas as evidências que se avolumam, a partir dos dados da própria ciência, para a existência de um Deus Criador.


Desde a assimetria universal do espaço-tempo às coincidências, nada prováveis, do leque das constantes cósmicas, o autor, um sacerdote da Companhia de Jesus, redige uma obra de leitura surpreendentemente agradável, sem nunca incorrer na tentação de arguir que o que refere é de uma evidência apodíctica, antes dizendo, com a humildade que a ciência exige, que tudo o que apresenta indicia mais a existência de um ser transcendente do que a sua inexistência. Recorrendo também ao contributo epistemológico de Bernard Lonergan, a obra apresenta uma fundação muito boa para a construção de uma estrutura intelectual para conseguir, na sequência da Encíclica “Fides et Ratio” de João Paulo II, fazer avançar o diálogo entre a Fé e a Ciência.

Recorrendo ao método socrático e uma panóplia de metáforas que simplificam, no bom sentido, a sua exposição, o autor elabora uma nuvem bastante elegante e convincente de argumentos lógicos para aquele apontar para a existência de um Criador. Mesmo nas ocasiões em que a sua exposição se torna mais académica, a sua linguagem logra ser acessível a quem não é cientista nem filósofo.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Livros (4) | Carmine Di Sante - L'uomo alla presenza di Dio

Carmine Di Sante é um dos mais fascinantes teólogos da actualidade. Especializado em Liturgia e Psicologia em distintas universidades de Roma, soube introduzir, como poucos, uma lufada de ar fresco nos estudos bíblicos contemporâneos elevando-os a um patamar em que a acessibilidade e a profundidade conjugam-se harmoniosamente num suceder, em cada página dos seus ensaios, de surpresa e encanto.

 
No texto que aqui apresento, L'uomo alla presenza di Dio: l'umanesimo biblico, o autor, regressando ao texto fundamental de Martin Heidegger apelidado de "Carta sobre o humanismo", procura, a partir da perspectiva antropológica bíblica, responder a questões tão normativas e essenciais como "o que é o homem?"; "em que consiste a sua humanidade?". E fá-lo com uma enorme graciosidade alicerçando as suas respostas nas categorias bíblicas essenciais de "aliança" e Incarnação" que fazem com que aquelas sejam absolutamente irredutíveis dentro da panóplia de opiniões sobre "o que é ser homem".
 
Num enquadramento epocal em que a humanidade parece estar a dissolver-se num relativismo selvagem em que a subjectividade imatura de cada tende a querer impor-se como a norma absoluta da sua existência e, mais grave ainda, da dos outros, Di Santi mostra que a Bíblia guarda o segredo de como a Alteridade, que vem até nós na alteridade relacional e incarnacional do outro, chama à constituição de uma humanidade hospitaleira e fraterna. Só assim, pela educação da vontade humana que se depara com uma lógica de amor que a precede, a humanização não se converte numa desumanização.

sábado, 18 de setembro de 2010

Livros (3) | Javier de la Torre - Anticonceptivos y ética

Regresso, neste momento, à apresentação de livros para uma mínima biblioteca Cristã para os nossos dias. E faço-o através de um livro que aborda um tema que, ao longo da nossa história recente, imensas feridas provocou nas relações com, e percepções da, Igreja magisterial: o da regulação da natalidade.


Para o efeito deixo aqui a referência a uma obra na minha opinião notável e surpreendente: Javier de la Torre - Anticonceptivos y ética. O autor, professor de direito, bioética, e moral Cristã na Universidad Pontificia de Comillas e autor de inúmeros textos de grande relevo e interesse, é das pessoas mais habilitadas, em todos os aspectos, para tratar desta temática. E fá-lo de um modo simultaneamente acessível e penetrante, sem deixar nada de lado nesta sua pequena publicação.

Esta obra divide-se de acordo com dois objectivos claramente perceptíveis: Em primeiro lugar, deseja situar devidamente a reflexão dos métodos de prevenção da concepção dentro de uma longa história de métodos e opiniões morais sobre a anti-concepção. Em segundo lugar, aspira apresentar, a partir de uma perspectiva concreta e não meramente nocional, um conjunto de critérios que possam ajudar na elaboração de discernimentos adequados para a apreciação moral adulta e responsável das decisões anti-conceptivas num contexto Cristão, isto é, num contexto de amor gerador de verdade e autenticidade inter-relacional.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Livros (2) | François Brune - Hélas! Qu'avons-nous fait de Son Amour?

Regressando à rubrica da apresentação de alguns livros que estimo verdadeiramente relevantes para os nossos dias, tenho o imenso gosto de me referir a uma pequena pérola francesa que infelizmente é comummente desconhecida, totalmente desconhecida, num Portugal onde as publicações de livros religiosos sucedem-se com critérios editoriais nem sempre facilmente descortináveis.


Refiro-me ao livro de François Brune, sacerdote da Companhia de Saint-Sulpice especialista em línguas antigas e estudos bíblicos bem como em temas de "confronto" como o esoterismo, Hélas! qu’avons-nous fait de Son Amour? Trata-se de um conjunto de mais de trezentas páginas em que somos confrontados com aquilo que, apesar de ser por demais evidente, raramente paramos para constatar, seja na sua existência, seja nas implicações desta: a Igreja, por diversos motivos que lançam as suas raízes num passado em que se estava mais preocupado com a manutenção do que com a evangelização, não consegue fazer passar a mensagem de que Deus é Amor e nada mais do que Amor.

Daqui, e quase que só daqui, é que surgem os imensos problemas que a Igreja parece acumular para aqueles que não a conhecem devidamente, mas antes a desejam percepcionar a partir dos critérios com que se medem as actividades das demais realidades. Para se inverter esta situação, o autor preconiza um regresso ousado às fontes mais autenticas da vida eclesial: a Bíblia e a Tradição. Não à Tradição composta por  uma sucessão de áridos teólogos de "gabinete", mas à nutrida por aqueles que de um modo mais peculiar viveram Deus: os mestres da espiritualidade Cristã.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Livros (1) | Peter J. Kreeft - Back to Virtue

Começamos hoje uma rubrica que gostaria que tivesse uma certa continuidade nos próximos tempos: a apresentação, a breve apresentação para ser mas correcto, de alguns livros que acreditamos serem relevantes e edificantes para os nossos desafiantes dias.


E para início da mesma passamos a falar de Peter J. Kreeft - Back to Virtue. Trata-se de um pequeno livro editado pela Ignatius Press no já relativamente distante ano de 1990. O autor, depois de ter saído do Calvinismo para entrar na Igreja Católica no início da sua terceira dezena de anos, passou a ser, quer enquanto professor de filosofia em Boston e New York, quer enquanto autor de livros, um dos mais corajosos arautos das implicações filosóficas, teológicas e espirituais de Deus ser Amor.

Neste livro o autor, recuperando, através de referências sempre pertinentes aos Padres da Igreja e a filósofos modernos e contemporâneos, o tema vetusto das "virtudes", apresenta um mapa para as mais elevadas formas de vida Cristã, e assim humana, seja na sua dimensão interior, seja na sua dimensão exterior, para, desse modo, se operar a conversão da lógica infantil do "conformar a realidade aos nossos apeteceres" para a madura lógica do "conformar os nossos desejos com o que nos faz real e objectivamente melhores".