Viver desapegado é essencial para poder-se viver. Quem se apega a isto ou aquilo torna-se possuído por aquilo que julga possuir; torna-se instrumento daquilo que devia ser um instrumento para a sua humanização e, assim, não só o degrada, como, mais ainda, degrada-se a si mesmo. O essencial é usar tudo o que é nuclear para o nosso modo concreto de prolongar a visibilidade do Criador Incarnado de um modo desapegado, de um modo livre. É usar algo sem se submeter aos caprichos que surgem da relação com esse algo; é tornar o peso específico desse instrumento numa imponderabilidade específica, colocando o centro de gravidade da relação, que com ele se tem, não em nós, nem nele, mas no Criador comum.
De facto, o problema não é o objecto em si, mas a avidez que existe frequentemente no nosso coração. Assim é o coração que precisa de ser liberto para ser livre. Tal não se consegue afastando-se da realidade, mas, imerso nela, vendo-a a partir da perspectiva do Criador, isto é, como um espelho da sua bondade e Amor, mesmo nas circunstâncias mais adversas.Mais do que acumular falsas seguranças, fruto de uma bola-de-neve de bens que de possuídos se tornam em possuidores da nossa vida, há que confiar apenas n'Aquele que em nós confia e nos convida a viver num comprimento de onda cheio de flexibilidade e leveza. Só assim apontamos a nossa existência ao Alto que até nós desce continuamente e, consequentemente, acertamos na face correcta daquilo com que nos relacionamos.
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