Regresso neste momento à apresentação das grandes pinturas de inspiração Cristã. Faço-o com a Trasfigurazione de Fra Angelico, obra prima deste dominicano do século XV.
Desde logo verifica-se que todas as personagens estão como que esculpidas a partir de uma luz cristalina que transmite uma vibrante sensação de lusco-fusco em relevo plástico. As fisionomias são suaves, mas firmes e o ambiente geral é de extraordinário realismo fortalecido pela cuidadosa colocação espacial dos representados. Na parte inferior encontram-se as figuras de Pedro, Tiago (de costas) e de João. O primeiro faz um gesto para tapar os olhos; Tiago encontra.se numa pose que, com as mãos e os pés contraídos, denota espanto; João, por seu lado e à direita da imagem, ajoelha-se e projecta as mãos com sincera reverência. Ao lado do torso de Jesus estão Moisés e Elias, personificações da Lei e dos Profetas, isto é, de todo o Antigo testamento, como testemunhos místicos da realização dos seus anúncios. Finalmente vemos Maria e o fundador da ordem religiosa a que pertencia Fra Angelico: Domingos de Gusmão.
Toda ela envolta num luz fora do comum, a composição está assente num rigoroso equilíbrio que aponta para a ordem de felicidade paradisíaca eterna abençoada por um Cristo brilhante numa pose que, antecipando a da crucifixão, estende os braços para abraçar aqueles que o contemplam. Estamos perante o Jesus entronizado plenamente como o Senhor Poderoso da criação, o Pantocrator, pois, aquele que, por amor, sustenta toda a realidade na existência. Um aspecto estilístico que ressalta da sua figura é o facto de parte do seu rosto estar numa espécie de penumbra em claro contraste com o resto da mesma que se encontra sob um manto de translúcida luminosidade. Tal deve-se não a uma sombra que esteja na sua face, mas nos olhos de quem se deparam com uma mais intensa luz que dimana da Luz. Diante desta, toda a luz natural é ensombrecida.

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