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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Poesia (30) | Emily Dickinson - They dropped like flakes

Eis, neste They dropped like flakes de Emily Dickinson, o eco passado de um presente que nos envolve diariamente. Mas a esperança, essa ignorada força vital que move os nossos corações, polvilha a nossa ambiência e faz-nos ver o que ainda está mais além do horizonte. Deixemos que ela nos conduza à única realidade que permanece e jamais perece: o Amor que nos acolhe a cada um.

 
They dropped like flakes

                                  They dropped like flakes, they dropped like stars,
                                  Like petals from a rose,
                                  When suddenly across the lune
                                  A wind with fingers goes.

                                  They perished in the seamless grass,--
                                  No eye could find the place;
                                  But God on his repealless list
                                  Can summon every face

O Cristianismo dito numa palavra

Por vezes há quem, para dizer o que é o Cristianismo, envereda por elaborações inacessíveis. Mas nada de mais errado na minha opinião. Claro que os processos de simplificação por vezes levam a que se ignore elementos essenciais, contudo é sempre válido tentar ajudar a compreender a nossa fé. Se tivesse que resumir esta numa só palavra, ela seria "comunhão", pois ela, ao ser sinónimo de amor, é a palavra-chave da história de entre Deus e a humanidade.

* "Antes" da criação, só havia a Trindade: comunhão íntima do Pai, Filho e Espírito Santo; * no relato poético do Génesis, algo só é dito que é "muito bom" quando a Adão dá-se em comunhão Eva; * a queda é a ruptura de duas comunhões: de Adão e Eva  e da humanidade com Deus; * no Sinai, Deus estabeleceu uma Aliança com os israelitas numa nova comunhão com Ele.
 
* Na incarnação, Deus dá um ulterior passo para uma comunhão definitiva com a humanidade tornando-Se um de nós; * na crucifixão, Jesus entrou em comunhão com o abismo do homem, assumindo em Si os nossos pecados e morrendo por nós; * na sua ressurreição, Cristo deu o último passo na realização da inultrapassável comunhão entre Criador e Criatura.

* Ao entregar à sua Igreja o sacramento da Eucaristia, a comunhão sacramental, Cristo dá-nos o  motor da nossa união a Deus e aos demais homens; * no fim dos tempos, aqueles que aceitarem acolher a vontade  salvífica de Deus serão plenamente unidos a Ele e passarão a viver a própria vida divina, realizando-se, assim, a comunhão radical.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Poesia (29) | José Tolentino Mendonça - Para ler aos Noviços

José Tolentino Mendonça, o padre poeta ou o poeta padre: eis aquele que é tido como um dos maiores vultos da poesia portuguesa contemporânea: um criador de beleza e de pensamento a partir de uma perspectiva Cristã sempre tão notavelmente presente nos brancos das letras dos seus textos. Aqui fica Para ler aos Noviços.

Para ler aos Noviços

                                   Deus não aparece no poema
                                   apenas escutamos a sua voz de cinza
                                   e assistimos sem compreender
                                   a escuras perícias

                                   A vida reclama inventários e detalhes
                                   não a oiças
                                   quando inutilmente perscruta as sequências
                                   do seu trânsito

                                   Só há um modo verdadeiro de rezar:
                                   estende o teu corpo ao longo do barco
                                   que desce silencioso o canal
                                   e deixa que as folhas dos bosques
                                   te cubram

O enigma da vigilância

Parece que, usualmente, não pensamos que esta viva perecível, por o ser, não é o tudo a que estamos chamados. A nossa meta definitiva, não sendo inseparável do que na caducidade logramos, não se confunde com isso, mas projecta-se para um mais além que se encontra na própria vida de Deus. Esta vida é como uma longa gestação em que devemos aprender a conviver no seio de Quem, se agora nos sustenta, também nos educará quando para Ele nascermos plenamente.

A morte, esse elemento tão natural e refrescante como o beber da mais fresca e cristalina água, é esse parto absolutamente certo. Contudo, frequentemente, esquecemos que teremos, um dia, que sair do ambiente em que nos encontramos actualmente. Embebidos nos afazeres de uma existência tão complexa, perdemos a noção de que devemos estar vigilantes às texturas da existência para nos preparamos para a hora em que tivermos, por vezes em circunstâncias inesperadas, que começar a berrar a plenos pulmões por apenas podermos respirar a atmosfera de Deus: o amor.

Estar vigilante não é estar obcecado com o que fazemos ou devíamos ter feito: é estar com os olhos postos nas impressões divinas que a nós advêm diariamente como sinais de transito no meio de uma viagem. É pôr, com essa força que nos alenta que é a esperança, os olhos nos alertas que continuamente nos recordam que somos mais do que parecemos ser. E que, assim, devemos projectar a nossa existência para um mais de sentido que um dia até nós virá.

Templos (9) | Porto - Igreja de Santa Clara

Finalmente, dirão alguns mais atentos ao que se tem passado nesta rubrica de templos Cristãos, umas notas sobre uma igreja portuguesa. Bem portuguesa por sinal, pois, como com tantas coisas de valor neste país estranho em que vivemos, quase tão desconhecida como notável: a igreja de Santa Clara no Porto.


Trata-se de um templo mandado construir para servir de local de culto ao mosteiro homónimo de religiosas clarissas mandado construir por D. João I no início do século XV. Ainda que tendo sofrido significativas renovações nos séculos XVII e XVIII, ainda nos podemos deleitar com alguns dos seus aspectos mais primitivos. A entrada da igreja, actualmente camuflada por detrás de um portal que quase que a faz desaparecer, é de estilo barroco com alguns elementos renascentista que se entrecruzam com traços plásticos tardo-góticos. Encontrando-se do lado esquerdo do templo, como é regra nos conventos femininos, a porta conduz para um interior constituído pela nave, capela-mor e, do lado oposto, os coros alto e baixo, com os próprios gradeamentos de clausura e uma roda de comunicação.


Contudo devemos dizer que o mais apelativo é, sem qualquer dúvida, o seu revestimento em talha dourada e policromada barroca e, em alguns pontos rococó, que, com uma simplicidade notável mesmo nos requintes mais peculiares, surpreende pela elegância e equilíbrio. De facto, um outro elemento a ser impreterivelmente visto, pesem embora as as dificuldades em se obter autorização para se o fazer, é o coro-alto com o seu cadeiral em madeira negra e notáveis decorações circundantes.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Poesia (28) | Marcel Ormoy - Lorsque j'aurai franchi

Eis mais um poeta que receio, e lamento, ser alguém absolutamente desconhecido em tantas e tantas estantes dos mais atentos seguidores da produção poética mundial: Marcel Ormoy. Também gostaria que, com este breve desfolhar do tempo aqui concentrado neste Lorsque j'aurai franchi, pudéssemos deixar que o seu espírito atento às modulações do fundamental chegasse até nos.


 Lorsque j'aurai franchi

                               Lorsque j'aurai franchi la porte du mystère,
                               Quand vous m'apparaîtrez face à face, Seigneur,
                               N'écouterez-vous pas l'ange de ma douleur
                               Vous réciter ma vie et ma détresse austère ?

                               Sur un visage humain j'ai cherché la beauté
                               Et dans un pur regard l'éclat de votre flamme.
                               Seigneur, dans cette quête ai-je perdu mon âme,
                               Confondant la chimère et votre vérité ?

                               Car je n'ai rencontré que la pire défaite,
                               Le néant du bonheur et l'éternelle faim
                               D'un impossible espoir que je découvre enfin
                               Dans le renoncement dont ma souffrance est faite.

Actualidade (6) | A miopia voluntária II


(b) Depois, o arcebispo belga diz que a SIDA é, talvez (palavra a que os senhores jornalistas não dão qualquer importância), uma forma de justiça imanente. Saberão os senhores jornalistas o que isto quer dizer? Não quer dizer que Deus (justiça transcendente) esteja a castigar os doentes com aquele flagelo. Isso é o que se deseja dar a entender na notícia, mas os factos não o corroboram. Deseja-se, isso sim, dizer que, sendo a sexualidade também um acto natural, todo o comportamento irresponsável a ela associado tem consequências graves igualmente a nível da natureza que podem (eis de novo o "talvez") estar, por exemplo, a sustentar a propagação da SIDA. Se tanta gente diz que as tragédias climáticas são uma forma da natureza se reequilibrar fazendo justiça aos exageros da actividade humana, nada mais de estão a dizer, por palavras menos rebuscadas e cultas, que «talvez os desastres ecológicos sejam uma forma imanente de justiça».


Mas alguém alguma vez veio dizer que estes senhores estão a demonizar as vítimas dos tornados, furacões ou saraivadas? Alguém veio dizer que se tratam de alarvidades insultuosas? Alguém o disse quando os dirigentes religiosos de outras religiões disseram, por exemplo, que os terramotos são consequência das mulheres andarem de mini-saia? E já agora, qual o motivo de não se dar tamanha importância aos textos fundantes de algumas religiões que, seguidos ainda hoje segundo o espírito em que foram escritos - e não o podendo deixar jamais de o ser -, apelam à morte de homossexuais? Quem demoniza quem? Eis ainda outra miopia voluntária grave que demoniza os Cristãos.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Simplesmente oração (2)

Chegou a este blog mais um singelo pedido de atenção às intenções de uma pessoa que muito necessita das nossas preces. Tal como foi dito que, com imenso gosto, seria feito, aqui deixamos umas palavras para que possamos unir o nosso coração às daquela em comum oração ao nosso Pai de Amor.

 

«Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora» (Mateus 25,13). Concede-nos, Deus de Amor, que nos encontres atentos e perseverantes, para que muito nos possas confiar. Que a presença de Cristo ressuscitado nos anime a cada dia a procurar com imaginação o caminho que nos leva a tua casa.

Poesia (27) | Juan Ramón Jiménez - Dios de Amor

Não há fome que não dê em fartura, dirão os mais atentos. Eis Juan Ramón Jiménez com Dios de Amor como mais um pequeno tributo à poesia em espanhol neste ano em que, mais uma vez, um autor da língua de Cervantes foi coroado com o Nobel da Literatura. Um agradecimento, pois, à literatura ibero-americana.
 

Dios de Amor

                                                Lo que queráis, señor;
                                                y sea lo que queráis.

                                               Si queréis que entre las rosas
                                               ría hacia los matinales
                                               resplandores de la vida,
                                               que sea lo que queráis.

                                               Si queréis que entre los cardos
                                               sangre hacia las insondables
                                               sombras de la noche eterna,
                                               que sea lo que queráis. 

                                               Gracias si queréis que mire,
                                               gracias si queréis cegarme;
                                               gracias por todo y por nada,
                                               y sea lo que queráis.

                                               Lo que queráis, señor;
                                               y sea lo que queráis.

Actualidade (5) | A miopia voluntária I

Surgiu, há dois dias, no jornal "Público" mais um exemplo daquilo em que se têm tornado alguns media ditos ultra-progressistas e ultra-liberais - outros chamar-lhes-iam de "cristianofóbicos" -. Refiro-me à notícia referente a umas palavras de um arcebispo belga Católico, André Leonard, e ao editorial a estas dedicado que são um exemplo consumado de uma epidemia corrente nos dias de hoje: a miopia voluntária grave que demoniza os Cristãos.

André Leonard profere, segundo o "Público", três conjuntos de palavras tidas como inadmissíveis nos dias de hoje: «a anormalidade do comportamento homossexual (se deve) a um bloqueio verificado durante o desenvolvimento psicológico normal»; que a SIDA «talvez se trate de uma justiça imanente» e que aquela doença é uma «consequência de uma sexualidade livre entre adultos».

Pondo de lado a questão da homossexualidade, vou centrar, hoje e amanhã, a atenção nas palavras sobre a SIDA. E faço-o apenas por dois motivos: (1) ao facto da própria notícia centrar-se nesta questão tal como se pode ver pelo título da mesma; (2) ao facto de que, apesar da perspectiva Católica da homossexualidade ser uma das preferidas catapultas para todos os ódios contra a Igreja, a verdade é que as críticas, às palavras e acção da Igreja relativas à homossexualidade, quase sempre ignoram, numa miopia voluntária grave que demoniza os Cristãos, a diferença entre inclinação homossexual e comportamento homossexual que está, por sinal, na base daqueles pronunciamentos e daquela prática.

(a) Em primeiro lugar, e começando pelas últimas palavras, apenas tenho a dizer que, linhas antes de elas surgirem no livro de onde foram retiradas, o arcebispo belga diz: «o verdadeiro amor livre deve ser igualmente responsável, caso contrário não é livre nem, em consequência, é amor». Como é fácil citar fora de contexto para veicular um pretexto. Se se tivesse em consideração estas palavras voluntariamente omitidas, a mensagem de André Léonard, que deve saber destes assuntos mais do que qualquer jornalista do "Público", parece clara e incontestável: uma sexualidade apenas livre, e não igualmente responsável, dá origem a comportamentos de risco susceptíveis de perpetuar a transmissão da SIDA. Não se está a condenar a sexualidade livre, mas a advertir que aquela que não é também responsável alimenta o flagelo da SIDA.


Alguém duvida disso? Algum jornalista do "Público" que seja pai e mãe de família não educa os seus filhos para uma sexualidade sadia e responsável? Ou diz-lhes apenas "andai, sois livres, fazei, nas palavras de Correia, o truca-truca onde e quando quiserdes sem cuidado nenhum"? O facto de, tal como afirma o citado editorial, haver pessoas que são contaminadas pela SIDA «por via sexual sem se terem exposto a comportamentos de risco» não elimina a verdade radical daquelas palavras. E o querer dar a entender o reverso é como dizer que não é preciso, ou que é perigoso, alertar para os perigos da condução sem o uso do cinto de segurança apenas porque há pessoas que morrem em acidentes de viação mesmo usando cintos de segurança. E jamais a Igreja, como insinua o editorial, proíbe o uso de preservativo em toda e qualquer circunstância. Irresponsável, por outro lado, é querer negar que, de facto, o uso do preservativo não é solução (embora possa ser, como admite a Igreja, uma das soluções) para o combate à SIDA, pois inúmeras pessoas são infectadas por vias não sexuais. Eis outra miopia voluntária grave que demoniza os Cristãos.

domingo, 17 de outubro de 2010

O apostolado na blogosfera

A blogosfera é quase tão antiga quão a Internet. Há bem mais de 150 milhões de blogs de acordo com uma recente estimativa. Se no início a blogosfera era um lugar reservado a especialistas dos computadores e da tecnologia, ela é, agora, respeitavelmente povoada por todos os tipos de pessoas. É verdade que o tom da blogosfera está muitas vezes cheio de raiva e em ocasiões não sem motivo. Mas é possível agir de modo diferente: é possível ser construtor da verdade, da honestidade, da transparência, da humanização e, assim, da sociedade cristificada sem enveredar por aqueles excessos, antes fazendo-se do blogar um humilde modo de serviço e apostolado Cristão.
 
Com efeito, muito daquele tom excessivo deve-se frequentemente ao facto de muitas pessoas se terem voltado para os blogs porque não foram ouvidas, porque as suas preocupações não estão a ser escutadas ou, se o estão, não são levadas a sério. Com paciência, respeito, amor e justiça é possível acolher, com as nossas palavras, a estas não só na rede, mas também nos nossos corações e, assim, evangelizar quer aquelas, quer esta.

Como mais e mais pessoas migraram para a Internet para discutir temas caros ao seu coração, começa a fazer cada vez mais falta, no espaço lusitano, uma blogosfera Católica animada, elevada e argumentativa. Seja para debater o que, normalmente, não se ouvem os prelados dizer; seja para ampliar a mensagem Cristã a novos horizontes; seja para refutar as mais desagradáveis e injustificadas críticas dirigidas ao Catolicismo em particular e ao Cristianismo em geral. Este espaço, este blog, deseja ser um pequeno contributo para isso mesmo e ele é, também, um espaço seu. Use-o.

Música (6) | Leonard Cohen - Hallelujah

Este Hallelujah de Leonard Cohen, bardo entre os bardos de uns USA desencantados consigo mesmos, é um exemplo notável do impacto que uma letra musical biblicamente inspirada pode fazer mesmo nos dias de hoje. Basta sentir o "frisson" dos repetidos "louvado seja Deus" ditos melancolicamente em hebraico para nos sentirmos ali bem perto de David e sua harpa. 

Poesia (26) | Antonio Machado - Profesión De Fe

A ausência, na rubrica de poesia deste blog, do texto de um autor de língua espanhola, neste ano em que o Nobel foi atribuído a Mário Vargas Llosa, era, como me fizeram notar, quase um crime. Eis então, aqui, Profesión De Fe do sevilhano Antonio Machado, poeta dos contrários e do amor ardente tipicamente andaluz. A ler, então, não com os olhos, mas com o sangue.

 
Profesión De Fe

                                   Dios no es el mar, está en el mar; riela
                                   como luna en el agua, o aparece
                                   como una blanca vela;
                                   en el mar se despierta o se adormece.
                                   Creó la mar, y nace
                                   de la mar cual la nube y la tormenta;
                                   es el Creador y la criatura lo hace;
                                   su aliento es alma, y por el alma alienta.
                                   Yo he de hacerte, mi Dios, cual Tú me hiciste,
                                   y para darte el alma que me diste
                                   en mí te he de crear. Que el puro río
                                   de caridad que fluye eternamente,
                                   fluya en mi corazón. ¡Seca, Dios mío,
                                   de una fe sin amor la turbia fuente!

sábado, 16 de outubro de 2010

Poesia (25) | Emily Dickinson - Truth

Hoje gostaria de vos presentear, com imenso gosto, com um breve mas significativo poema de Emily Dickinson: Truth. Como descrevê-lo? Uma pequena pérola? Um sorriso numa gota de papel? A verdade é que não sei, mas gostaria de saber mais do que aquilo que sinto.


Truth

                                               Truth - is as old as God -
                                               His Twin identity
                                               And will endure as long as He
                                               A Co-Eternity -

                                               And perish on the Day
                                               Himself is borne away
                                               From Mansion of the Universe
                                               A lifeless Deity.

O temor de se dizer crente

Falava-se, há uns anos, da ideia de "cristãos anónimos", isto é, de pessoas que, sem conhecerem Jesus Cristo e a sua mensagem, agiam verdadeiramente de acordo dos valores Cristãos. Talvez não seja totalmente descabido pensar que existem pessoas assim. Mas talvez fosse de se evitar tal denominação para os descrever e reservá-la para aqueles de entre nós, Cristãos, que receamos mostrar-nos e assumir-nos, com todas as consequências daí derivadas, como seguidores de Cristo no espaço público.

Ser Cristão na comodidade do lar e da consciência é relativamente fácil, mas trata-se de algo que não abraça todas as esferas da existência pessoal. Assim cria uma alienígena separação artificial - que até serão saudáveis noutras esferas de actividade - entre o privado e o público que leva a que como que desaparecêssemos da sociedade. Se isso já é uma realidade penosa em todas as circunstâncias, mais o é numa altura como a nossa em que a sociedade precisa de ser, mais uma vez, de ser suportada, desde dentro, pelos valores que erguem a humanidade à sua real dignidade.

No fundo, estou a crer que tal deve-se a uma de diversas razões: (a) receio de se ser tido como antiquado, como se a mensagem Cristã fosse uma espécie de fóssil jurássico inapropriado para os nosso dias; (b) impreparação para dar, aos demais, as razões da nossa opção vital por Cristo; (c) receio de perder estatuto e relevância numa sociedade cada vez mais crítica de alguns comportamentos, sejam eles expressão ou não do verdadeiro Cristianismo, que são, justa ou injustamente, criticados com aversão viperina. Em qualquer um dos casos tratam-se de motivos que negam, ao serem alimentados consciente ou inconscientemente, os dois esteios do agir Cristão: o anunciar e o denunciar.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Um mundo ateu

Estamos diante da emergência de uma primeira civilização ateia. Uma sociedade que prefere os lucros a curto termo em vez dos investimentos a um prazo mais dilatado, a facilidade à felicidade. Uma sociedade embebecida pelo orgulho que, mesmo nas esferas eclesiais, não se tem pejo em proclamar. O orgulho, este orgulho que é concomitante com uma radical descrença em Deus, é o daquele que se guia pela lógica da riqueza em direcção ao deixar de respeitar a contribuição da natureza, e dos demais, para a verdadeira edificação do mundo excepto quando aquela e aqueles lhe parecem uma outra fonte de lucro.

Mas isto leva, inexoravelmente, ao esgotar da vitalidade, da humanidade, da positividade. Ou seja: tendo-se querido substituir o espírito judaico-cristão que animava a civilização ocidental pela riqueza orgulhosa e o orgulho enriquecido que não é senão um sucedâneo daquele que nem é espiritual nem animante, acabou-se por se chegar a um vazio radical. Este vazio leva à dissolução das redes humanas, das redes de relação entre seres que ontologicamente são uma realidade corporativa e assim a desumanização assoma à realidade.

Desse modo, a fome humana conatural pela dimensão religiosa e espiritual leva, se dela nos deixarmos tornar conscientes, à busca um novo espírito onde ele se encontra. Mas estando esta civilização ateia num patamar de humanidade assaz basilar, encontramos-lo não nas propostas mais exigentes como as Cristãs, mas nas mais elementares, e por isso mais cativantes, que, por vezes, quase não elevam a humanização acima do mínimo.

Poesia (24) | Gerard Manley Hopkins - Thou art indeed just, Lord

Mais uma vez regresso, qual mar a querer escavar a costa, a Gerard Manley Hopkins. E desta feita com um Thou art indeed just, Lord para tentar, com espanto e ternura, dizer a beleza do nosso Deus, do Deus de Amor infinito que mostra que a sua justiça é sempre uma consequência, séria mas esperançosa, deste Amor.

Thou art indeed just, Lord

                               Thou art indeed just, Lord, if I contend
                               With thee; but, sir, so what I plead is just.
                               Why do sinners' ways prosper? and why must
                               Disappointment all I endeavour end?
                               Wert thou my enemy, O thou my friend,
                               How wouldst thou worse, I wonder, than thou dost
                               Defeat, thwart me? Oh, the sots and thralls of lust
                               Do in spare hours more thrive than I that spend,
                               Sir, life upon thy cause. See, banks and brakes
                               Now leavèd how thick! lacèd they are again
                               With fretty chervil, look, and fresh wind shakes
                               Them; birds build -- but not I build; no, but strain,
                               Time's eunuch, and not breed one work that wakes.
                               Mine, O thou lord of life, send my roots rain.

Livros (8) | Peter Stilweel - O meu primeiro Jesus

Apresento hoje, na secção desde blog dedicada a alguns livros que eu considero como essenciais para uma mínima biblioteca Cristã para se viver a fé com coragem e formação, um primeiro livro de um autor português: o padre Peter Stilweel, professor de teologia na Universidade Católica Portuguesa e director, a esta data, da faculdade de teologia desta no pólo de Lisboa. Refiro-me a O meu primeiro Jesus.


Trata-se de uma pequena mas incrivelmente deliciosa obra que, de um modo assaz original, deseja apresentar a figura de Jesus Cristo sob a perspectiva de um conjunto de pequenas estórias baseadas em algumas histórias do Novo Testamento. Há primeira vista parecem narrações inocentes e quase que inconsequentes, mas na realidade são muito mais do que isso. De facto, são breves mas penetrantes relatos que, com uma subtil capacidade de reverberação psicológica, desejam muito mais suscitar questões do que apresentar soluções imediatas sobre Jesus. E é a partir destas questões que se pode construir uma mínima figura de Jesus Cristo através do que é dito igualmente mediante a referência a figuras como, por exemplo, o jovem que fugiu nú do Jardim das Oliveiras, Simão o Leproso, a mulher que parte um frasco de bálsamo, Maria, o jovem rico.

Construído a partir do relato da paixão, morte e ressurreição de Jesus, trata-se um texto que lança sólidas raízes na própria concepção bíblica de "evangelho", isto é, de boa nova, mas recuperando a dinâmica própria da literatura epistolar que também encontramos no Novo Testamento. Também isto conduz a uma leitura agradável de um texto composto numa linguagem familiar que faz tocar as campainhas do "déjà vue" apenas para fazer desentranhar o espanto pela surpresa contínua que salta de cada página. De cada página que compõem uma história que está prenhe do desejo de poder fazer reviver o que levou à própria composição do Novo Testamento: o ser contada e recitada, de crente em crente, de alma amante a alma amante.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Aquelas palavras duras

Por vezes supreendemo-nos com algumas palavras duras de Jesus. Temos frequentemente a ideia de que Ele é apenas um compincha bonacheirão sempre disposto a uma gargalhada compassiva em todas as circunstâncias. Mas como estamos enganados. Cristo é nosso amigo, mas não cúmplice nos nossos devaneios que nos apartam de Deus e Este, Deus, é Pai, mas não um paizinho.

A vida Cristã, a vida em seguimento responsável de Jesus, é exigente, é árdua, é delicada: não é um passeio à beira-mar a beber uma caipirinha como por vezes dão a entender aqueles que, em vez de darem a conhecer o Evangelho, preferem moldá-lo a seu bel-prazer para não perderem os "fãs".

Há comportamentos com os quais, mesmo compreendendo-se o motivo pelos quais outros os realizaram, não se pode ser passivo. Se com as pessoas se deve estar sempre disposto a investir numa nova oportunidade, com o que elas fazem, e tal como Cristo evidenciou, há que ter a coragem de, frequentemente, dizer "isso não; estás enganado; por aí não vou". Não por aversão àquele que o está a fazer, ou o fez, ou quer fazer, mas, pelo contrário, por se gostar do mesmo. Toda a relação verdadeira é exigente e exigente, em primeiro lugar, connosco face ao bem dos demais.

Cinema (2) | Hugh Hudson - Chariots of Fire

Chariots of Fire ou, em na sua tradução para Portugal que ignora a ressonância bíblica do original, "Momentos de Glória" é um dos mais belos filmes sobre as relações entre a fé Cristã e a vida concreta com todas as suas exigências. Baseado na história verdadeira dos atletas britânicos que se preparavam para, e competindo em, os Jogos Olímpicos de Paris no ano de 1924, foi realizado por Hugh Hudson e conta com os notáveis desempenhos de Ben Cross, Ian Charleson, Nicholas Farrell, Nigel Havers. Aqui fica o seu  tristemente breve trailer.